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MONUMENTO AO PAI DA MÔNICA
Acadêmico: José de Souza Martins
Os personagens de Mauricio de Sousa, que ganhou uma homenagem permanente no Parque Trianon, baseiam-se numa concepção de sociabilidade que é a mesma de milhões de brasileiros

Monumento ao pai da Mônica

Maurício de Sousa é frequentemente mencionado por crianças como pai da Mônica, a dentucinha ranzinza.. Ninguém diz que Walt Disney é o “pai dos três Patetas” . Ou que é o pai do Pato Donald ou do Mickey. Talvez porque nessas histórias ninguém é pai de ninguém e ninguém é filho de ninguém. Na melhor das hipóteses, os que tem ascendentes são sobrinhos e os que tem descendentes são tios, não procriam. De certo modo, trata-se de uma sociedade avuncular. Não tem legitimidade antropológica. É indisfarçavelmente história em quadrinhos.

No caso de Maurício de Sousa, há uma diferença notável em relação ao padrão Disney. Suas personagens são seres vivos, de uma sociedade antropologicamente reconhecível pelas crianças. Maurício inspirou-se em seus filhos para definir suas personagens, nelas reproduzindo os respectivos temperamento e personalidade. Não apenas os filhos do autor estão lá. Também está o Chico Bento, o meu favorito, inspirado num tio de Maurício, lá da roça.

Família originária do interior, de uma região de fortes tradições caipiras, é de tradição comunitária, familista e vicinal. Não é estranho que o cachorro de estimação de Maurício tenha sido a primeira personagem da Turma da Mônica. Também personagens da troça infantil, de que Maurício fazia parte, entraram no elenco da Turma. É o caso de Cascão. Contou-me ele que era um menino que não gostava de tomar banho.

A turma da Mônica baseia-se numa concepção de sociabilidade que é a mesma de milhões de brasileiros, crianças e adultos. Diferente dos personagens de Disney. Na Disneyworld, que visitei com minhas filhas quando professor visitante da Universidade da Flórida, os visitantes ficavam admirados com a engenharia que dá vida a personagens diferentes dos da vida. Ninguém se comove com um rato ou pato que fala.

Mas os adultos se emocionam, com razão, com o Lincoln de um boneco falante que repete o Discurso do Cemitério de Gettysburg, de 1863. Ressalta os valores da liberdade e da igualdade como fundamento de um país de Governo do Povo, pelo Povo e para o Povo. Um discurso que tem sentido até para nós latino-americanos, tão desconectados dessa concepção de poder e de democracia. Certamente o tem até para americanos da era Trump e para cubanos americanizados.

O afluxo de numerosas crianças e numerosos adultos nestes últimos dias ao monumento de bronze erguido no Trianon, em São Paulo, na Avenida Paulista, para celebrar os 90 anos de idade de Maurício de Sousa, é um forte indício da presença desse grande autor de quadrinhos na vida das novas gerações de brasileiros. Muitos que lá tem ido foram crianças culturalmente aparentadas com a Turma da Mônica. O que é particularmente significativo num país que, na sua fragmentação ideológica, já não tem uma referência propriamente brasileira para dizer às novas gerações quem somos e quem queremos ser.

Já ouvi gente desinformada dizer que Maurício não é escritor. Apenas quadrinista. Não deveria estar na Academia Paulista de Letras. Há uns poucos anos a Unesco prestou-lhe uma grande e significativa homenagem no Teatro São Pedro, em São Paulo, por ser ele o maior formador de leitores do mundo. É por isso que ele está lá.

Até há alguns anos, a Academia Paulista de Letras, nos dias de sua reunião semanal, e no mesmo horário, reunia, em seu auditório, crianças e adolescentes das Academias de Letras das escolas de São Paulo. Uma inspirada criação do acadêmico Gabriel Chalita.

Cada escola com uma academia de 40 membros, renováveis anualmente, cada cadeira com o nome de um escritor conhecido. Lembro de um dia em que Chalita nos trouxe do auditório do andar térreo uma menina que era titular da Cadeira Lygia Fagundes Telles, de sua escola, de cuja obra já havia lido vários livros. Lygia estava sentada à cabeceira da mesa. Quando ela chegou à porta da nossa sala de reuniões e viu Lygia, caiu em prantos, emocionada: Lygia existia. Abraçaram-se e conversaram. O mais solicitado dos nossos autores naqueles encontros era Maurício de Sousa. O pai da Mônica também existe.

Sou da geração que lia as tiras de Mafaldita, do argentino Quino, e as releio porque de mensagens filosóficas e universais. Coisas simples e necessárias na formação de uma consciência social crítica e desalienadora: “Como sempre, o urgente não deixa tempo para o importante.”.

A americana Marjorie Henderson Buell, que morreu em 1993, criou a figura memorável e referencial da Luluzinha, que no grupo de amigos de infância que, entre outros tem o Bolinha, educou gerações para a emancipação das pessoas desde crianças com base no princípio da igualdade. Os quadrinhos desses autores são um verdadeiro movimento social pela democracia.

Publicado em Eu& Cultura (Valor), An0 25, Nº 1.323, Sexta-feira, 17 de julho de 2026, p.5.



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