|
||||
|
| ||||
![]() Acadêmico: Gabriel Chalita Nesta boa noite em que recebemos você. Você e todo o fluxo de sua vida e de seu povo. Do nosso povo.
Seja bem-vindo, Daniel Munduruku, a Casa do Largo do Arouche, agora, é também sua.
Discurso de saudação a Daniel Munduruku Boa noite. Que noite boa! Noite de festa na Casa das Palavras de São Paulo. Na nossa centenária Academia Paulista de Letras. Querido presidente, Queridos acadêmicos, Senhoras e senhores. “Qual é o sonho de uma criança indígena? Eu tive a curiosidade de perguntar para uma criança Munduruku o que ela queria ser quando ela crescesse. Ela olhou para mim com uma cara de estranhamento e disse: "Ué, eu quero ser avô!". A criança, a gente costuma dizer, é aquela que tudo pode. O velho é aquele que tudo sabe. No velho, está a criança, mas, na criança, ainda não está o velho. Ela tem que passar por cada estação para chegar lá. O avô é aquele que conta as histórias. Ele liga o presente ao passado e faz o círculo continuar funcionando. Mas como uma espiral, que vai se movendo para frente e, à medida em que vai se dando oportunidade para essa criança de se tornar avô, ela vai acumulando as estações dentro dela. As pessoas, às vezes, perguntam: "Ah, o Daniel escreve pra criança e tudo mais?". "Não, eu não escrevo para criança, eu escrevo para a infância. Porque a infância está dentro das pessoas. Cada estação carrega dentro de si as estações anteriores”. Esse é um dizer do novo acadêmico da nossa Casa. Daniel Munduruku viveu muitas estações para chegar até aqui. E prossegue com a infância dentro dele. A infância são os seus olhos de esperança, quando, incansável, conjuga o verbo do crer no mundo. Em mais de um mundo. O mundo que se vê e mundo que se sente. Diz ele: “Hoje vi um beija-flor assentado no batente de minha janela. Ele riu para mim com suas asas a mil. Pensei nas palavras de minha avó: “Beija-flor é bicho que liga o mundo de cá com o mundo de lá. É mensageiro das notícias dos céus. Aquele-que-tudo-pode fez deles seres ligeiros para que pudessem levar notícias para seus escolhidos. Quando a gente dorme pra sempre, acorda beija-flor.” Há tanto de sagrado nas estações vividas por Daniel Munduruku. O voo de depois se voa antes, quando se sabe filho de um depois. A crença na imortalidade nos aumenta a responsabilidade. Como operário das palavras e dos afetos. Como cirandeiro de esperanças. Daniel nasceu em 28 de fevereiro de 1964 em Belém, no Pará. O ano de 2026, ano em que toma posse na Academia Paulista de Letras, é o ano em que ele celebra trinta anos de seu primeiro livro, “Histórias de Índio”. Sobre a semântica índio, explica Daniel: “E por que eu não gostava de que me chamassem de índio? Por causa das ideias e imagens que essa palavra trazia. Chamar alguém de índio era classificá-lo como atrasado, selvagem e preguiçoso. E como já contei, eu era uma pessoa trabalhadora e ajudava meus pais e meus irmãos e isso era uma honra para mim. Mas uma honra que ninguém levava em consideração. Para meus colegas, só contava a minha aparência… e não o que eu era e fazia.” Fez e faz muito esse educador de alma. Em 1989, formou-se em Filosofia, História e Psicologia na Universidade Salesiana de Lorena. Em 2010, defendeu seu doutorado em Educação pela Universidade de São Paulo. E, em 2012, o pós-doutorado em Linguística e Literatura Indígena pela Universidade Federal de São Carlos. Como escritor, afirma nosso novo confrade: “Sou um escritor e educador indígena da etnia Munduruku, dedicado a promover a cultura e a sabedoria dos povos indígenas por meio da literatura e da educação. Com uma carreira que abrange diversos gêneros literários, incluindo ficção, não-ficção e literatura infantojuvenil, meu trabalho busca valorizar a identidade indígena e contribuir para a preservação da cultura.” Vamos a alguns de seus livros: “A chave do meu sonho”, “Coisas de índio”, “Contos indígenas Brasileiros”, “Crônicas indígenas para rir e refletir na escola”, “Das coisas que aprendi: ensaios sobre o bem-viver”, “Meu vô Apolinário – um mergulho no rio da (minha) memória”, “O banquete dos Deuses”, “O Karaíba – um história do pré-Brasil”, “O caráter educativo do movimento indígena brasileiro”,“O olho bom do menino”, “Redondeza”, “Um sonho que não parecia sonho”, “Você lembra, pai?”, “Vozes ancestrais: dez contos indígenas”, “Mundurukando 1 – sobre saberes e utopias”, “Mundurukando 2 – sobre vivências, piolhos e afetos”. Até piolho nos serve para educar, para nos levar ao mundo aconchegante e preparador dos afetos. Diz Daniel: “Educar é como catar piolho na cabeça da criança. É preciso que haja esperança, abandono, perseverança. A esperança é crença de que se está cumprindo uma missão; O abandono é a confiança do educando na palavra; A presença é a perseguição aos mais teimosos dos piolhos, é não permitir que um único escape, se perca. Só se educa pelo carinho e catar piolho é o carinho que o educador faz na cabeça do educando, estimulando-o a palavra pela magia do silêncio. Ser educador é ser confessor dos próprios sonhos e só quem é capaz de oferecer um colo para que o educando repouse a cabeça e se abandone ao som das palavras mágicas, pode fazer o outro construir seus próprios sonhos. E pouco importa se os piolhos são apenas imaginários”. Imaginemos um mundo melhor. É possível. Afinal, somos escritores. Somos filhos da utopia. Nos alimentamos de sonhos impossíveis para fazer possível o viver no mundo. Conheci Daniel há muito tempo. Éramos jovens e estudávamos entre as Serras do Mar e da Mantiqueira, no Vale encantado do Paraíba. Permitam-me chamar assim o pedaço do mundo onde nasci. Onde nasceu, também, a saudosa escritora Ruth Guimarães que, por um tempo, ocupou esta casa e nos contou histórias dos gregos aos caipiras, dos franceses aos indígenas, das gentes que lemos nos livros às gentes, que, no interior, batem palmas diante da nossa casa para pedir um pouco de pó de café emprestado. Emprestamos sempre. O que temos e a nossa vida, se na vida acreditamos. Acompanhei o Daniel um pouco à distância, lendo seus livros, aplaudindo seus prêmios, vibrando por sua trajetória. O professor decide ser vereador em Lorena, a cidade das Palmeiras Imperiais. E que vereador! Um vereador com causa. Um homem que faz da política um estender as mãos. Para caminhar junto. Para desacreditar dos desvios e das arrogâncias da não política. É preciso ter esperanças. Lembro com saudade do poeta de São Paulo, decano por tanto tempo, em nossa casa, Paulo Bomfim, “Todo homem precisa de um tema para viver”, ou isso ou o viver é um nada. Todo homem precisa de amor, diz o príncipe dos poetas brasileiros: “Só amando nos renovamos. O êxtase é a única linguagem comum a todo o infinito. É o alimento do efêmero e do eterno. Através do amor o humano se diviniza e o divino se humaniza”. Grande Paulo Bomfim. Que saudade. Amigas e amigos, humanizemos a nós mesmos e a humanidade inteira. Nem que seja a humanidade dos nossos entornos. O nosso rio. Que é maior do que qualquer rio, porque é o rio da nossa aldeia. Somos rio que não para. Que corre para o oceano. Somos carne e somos sonho. Em “A chave do meu sonho”, diz Daniel Munduruku: "No tempo desta história, o tempo não era contado. Não havia marcadores físicos do tempo, a não ser as estações do ano. Naquele tempo, as pessoas nasciam sob o signo das luas e das estrelas e todos viviam felizes por não contarem suas vidas pelo tempo vivido, mas pelas transformações por que seus corpos passavam. Nascer era uma festa, viver era uma festa, morrer era uma festa. Certezas não existiam, pois tudo acontecia ao sabor das correntezas do tempo." Querido Daniel, que honra recebê-lo em nossa casa. A cadeira 21 era, até pouco tempo, ocupada por um mestre da criatividade e da gentileza, um escrevedor de amor nos textos e na vida. Roberto Dualibi é memória em todos nós. Eu estava aqui quando ele chegou, sucedendo o grande advogado Paulo José da Costa Junior. Somos rio, amigo. Rio que percorre as margens vendo e fazendo vida. Eles e tantos outros que compartilhavam saberes conosco em nossa casa permaneceram. Agora é você que nos trará sabedoria e afeto. Que nos lembrará das riquezas da ancestralidade. Dos povos originários. Da cultura Munduruku e de tantas outras que nos fizeram. A nossa identidade vem do conhecimento e da dor dessa gente resistente. Dessa gente que olha a criança e o velho. A criança que quer ser avô e o velho que carrega a infância dentro dele até virar beijaflor. Beijemos a vida enquanto pudermos. As margens têm paisagens convidativas. O rio, que somos, contempla, interfere, alimenta e é alimentado. Somos seres da convivência. O bom convívio é um valor que nos orienta e que, talvez, inspire os que desacreditam que a vida é muito mais bonita quando as mãos se oferecem para caminhar e os pés não desistem. Nem quando sangram. Tristes homens que sangraram e sangram homens. Nas guerras. Nas violências. No preconceito. O mundo prossegue assim, infelizmente, desassistido de sonhos. Com gente incapaz de narrar a si mesmo. De olhar os seus ontens e de acreditar que o amanhã existe. Ontem, éramos promessas. Hoje, somos. Rio. Corremos. Amanhã oceano ou beija-flor. Amanhã seremos. É o que acredito e é o que divido com vocês nesta noite boa. Nesta boa noite em que recebemos você. Você e todo o fluxo de sua vida e de seu povo. Do nosso povo. Seja bem-vindo, Daniel Munduruku, a Casa do Largo do Arouche, agora, é também sua. voltar
|
||||
| Largo do Arouche, 312 / 324 • CEP: 01219-000 • São Paulo • SP • Brasil • Telefone: 11 3331-7222 / 3331-7401 / 3331-1562. |