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![]() Acadêmico: Júlio Medaglia Hoje, peço licença para romper a formalidade do discurso formal desta Casa porque estou recebendo Tom Zé, que não tem nada de formal em sua vida.
DISCURSO DE RECEPÇÃO DO ACADÊMICO JÚLIO MEDAGLIA A NOVO MEMBRO DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS, TOM ZÉ Prezado senhor presidente da Academia Paulista de Letras, Antonio Penteado Mendonça; queridos confrades e confreiras, prezados senhores e senhoras aqui presentes. Hoje, peço licença para romper a formalidade do discurso formal desta Casa porque estou recebendo Tom Zé, que não tem nada de formal em sua vida. Ele sempre foi um apóstolo da não formalidade. Aliás, seguindo nosso querido poeta Maiakovski que dizia que não há arte revolucionária, sem forma revolucionária. E a forma da música de Tom Zé e tudo que ele já fez até então, e eu o conheço há muito tempo atrás, quando ele venceu um festival, foi sempre surpreendendo a todos, com suas apresentações, suas gravações e suas ideias. Cada show de Tom Zé é sempre uma novidade, é um susto, às vezes. Acontecem coisas no palco que você não espera; não é um músico linear. Desses músicos cancioneiros, que sentam e cantam canções bonitas, que até poderia ser porque tem talento para isso. Mas, a cabeça dele é tão violenta, em matéria de funcionamento e busca de coisas inusitadas, que fez dele um dos grandes músicos deste país. Dentro do próprio movimento tropicalista, muitos companheiros dele daquela época, aliás eu fui um deles porque fiz arranjos para o tropicalismo, mas as pessoas depois de algum tempo, em geral, vão passando para outras fases, voltando para um certo cancionismo linear, mas o Tom Zé não para quieto. Cada acontecimento dele musicalmente falando é sempre uma surpresa. Eu o conheci e me encantei com ele, como estou agora tendo a satisfação de apresenta-lo, quando entregou para ele o prêmio do grande Festival da TV Record, que acontecia nos anos 60, época em que a TV Record conduzia toda aquela revolução musical e estava no auge da sua programação. O Festival de Música Popular Brasileira de 1968 da TV Record chegou a dar 94,4 de audiência, quando eu também fazia parte do júri. Indo, inclusive, parar no Guiness Book de recordes: maior índice de audiência de televisão do mundo e, curiosamente, com a melhor música do mundo – uma prova evidente que o brasileiro não é nenhum imbecil como os meios de comunicação de hoje acham que são. Quanto mais subia a qualidade musical daqueles festivais, mais subia a audiência, chegando a quase 100, uma coisa absolutamente inusitada em qualquer lugar que tenha rádio e televisão que tenha controle de pesquisa de mercado e audiência. Tom Zé com sua música "São, São Paulo Meu Amor" trouxe uma visão muito diferente do que acontecia por aqui. Mario de Andrade, que ocupava a Cadeira n. 4 desta Academia, que hoje eu tenho a honra de ocupar, apaixonado por esta cidade que crescia vertiginosamente, furiosamente, disse que desejava que quando morresse, tivesse seu corpo esquartejado e espalhado em cada ponto desta cidade – um tipo de amor meio macabro, mas sublime. Já Caetano Veloso, em sua música Sampa, achava a poesia e a beleza nesta selva de pedra. Essa coisa poética que ele fez na sua homenagem à nossa cidade. Já Tom Zé, com sua "São, São Paulo Meu Amor", viu a cidade com essa loucura, um conglomerado de solidões, com pessoas circulando, parecendo que se amam com ódio; está todo mundo correndo, mas também se odeiam com muito amor. E apesar disso, com todos os seus defeitos, você está no meu peito, São, São Paulo Meu Amor, que deu a ele esse prêmio que com fez com ele fosse conhecido em todo o país. E eu me encantei com a trajetória de Tom Zé; com a vida de Tom Zé, que é uma coisa impressionante. Se ele fez aquela música cheia de balbúrdias, sempre no melhor sentido da palavra, que tem a ver com todo o passado dele, que veio da cidadezinha do interior da Bahia, que possuía menos habitantes que o Largo do Arouche. E, no ano de 1969, aconteceu uma coisa curiosa. Logo no ano seguinte, eu mudei para Alemanha. Eu tinha morado cinco anos lá e fui morar mais cinco anos. Mas antes, eu passei por Buenos Aires, e um violinista da Orquestra de Colón, quis me apresentar um músico argentino que estava revolucionando o tango, o que eu achei uma loucura porque mexer no tango argentino é correr risco de vida; a Argentina está montada em dois pilares: Peron e o tango, de Gardel. E ele conheceu esse músico que se chamava Astor Piazzolla e ficou apaixonada pela música dele. Astor Piazzolla, que tem algo a ver com Tom Zé, tornou-se um grande amigo seu. Ele fazia um tango que tinha aquela cafonice do velho tango, meio la caballera, meio kitsch, mas que soava como Stravinski ou Villa Lobos, uma coisa impressionante. Depois, fui para a Alemanha, onde tinha montada uma pequena empresa de edição de música, e convidamos Piazzolla para ir para a Alemanha, editamos a música dele e ali começou a carreira dele internacional. Nesse período, ele ficou hospedado em sua casa, em Baden Baden. Ele era uma figura adorável e lhe contou como tinha sua vida. Jovem ainda, foi para os Estados Unidos com o pai. Lá, além do bandonéon que já sabia, aprendeu a tocar piano com Rachmaninov. Lá, também estudou línguas. Depois, foi para a França, onde estudou música com Nadia Boulanger, que era a maior professora de composição da Europa, naquela primeira metade do século XX. Nadia Boulanger, ao ouvir sua música, o aconselhou a voltar para sua terra e não queira copiar as vanguardas da Europa; vá fazer uma música que tem a ver com suas origens humanas, sociais, artísticas, culturais e musicais. E foi o que ele fez. Ele voltou para a Argentina e, a partir daí, começou a fazer uma verdadeira revolução no tango. E, uma ocasião, quando Astor Piazzolla estava em minha casa, e eu sendo comendador de uma confraria de vinhos de Baden Baden, o levei para conhecer os vinhos da região. Ao provar um dos vinhos, Piazzolla ficou encantando e lhe disse: “Julio, la musica es como el vino, deve venir dela terra”. E tudo para chegar ao Tom Zé, que teve o mesmo comportamento de Astor Piazzolla. A música dele veio da terra. Mais precisamente do terreiro da sua cidade de Irará, uma cidadezinha do interior da Bahia, onde ele circulava e via passar toda semana uma figura estranhíssima, um caixeiro viajante, que trazia sua malinha, colocava um lençol no terreiro e sobre esse lençol, colocava um monte de badulaques e tentava vender, cantando, contando histórias, rodopiando em volta do terreiro e desafinado pessoas. E Tom Zé tomou como modelo essa figura, o homem da mala como era conhecido, com toda a música folclórica da região, com as coisas da Bahia, com esse povo tão musical. Tom Zé passou a fazer shows da mesma forma como aquele homem fazia, circulando pelas cidadezinhas, pelos clubes, pelas estações de rádio. Era o próprio homem da mala, com os badulaques dependurados pelo corpo. Ele chegava e começava a cantar e a cantar. Ele não queria vender produtos; ele queria vender sua música. E a sua música tinha todos os componentes das suas coisas locais, da sua terra, da sua origem humana. Mas, ele não se satisfez só com isso. Ele depois foi para Salvador, onde foi estudar na Universidade da Bahia, que tinha como reitor uma pessoa totalmente fora do comum chamada Edgar Santos, que transformou toda a universidade em uma coisa de vanguarda, não só educativa, mas também cultural. Em determinado momento, chegou a ser a capital cultural do Brasil. Ele criou escola de teatro, escola de música, escola de dança e também um polo cinematográfico. Lá, a parte cultural nos anos 50 e 60, era realmente não só um polo de novos conhecimentos, mas era um polo de incendiários culturais. E lá Tom Zé se sentia muito bem. Lá, conheceu Caetano Veloso e Gilberto Gil. Ficaram amigos e começaram a criar coisas em conjunto. Depois, vieram para São Paulo, que era considerada a capital da música popular brasileira, além de ser capital cultural do Brasil. E foi aqui que começaram a desenvolver aquele movimento tropicalista brasileiro, que era uma coisa que expandia todos os parâmetros da música popular brasileira, no sentido de fazer uma música que não era um simples cancioneirismo. O tropicalismo era um tipo de música que cabia a música popular, a música impopular, a música erudita, a música cafona, a música de vanguarda, a música de retaguarda, a música elitista, a música com sentido social, a música romântica, a música política, a poesia de Cuíca de Santo Amaro, que era um poeta popular na Bahia, mas também tinha a poesia concreta, olha que extremos! Tinha o portunhol, tinha o latim, tinha o berimbau, tinha o theremim – era esse caldeirão de ideias que o tropicalismo fez e mudou todo o conceito de música naquela época. Tom Zé não para quieto. Tom Zé continuou sempre renovando, sempre criando coisas novas. Nos seus 22 discos, sempre com letras e músicas próprias, sempre apresentou coisas novas. Ele sempre foi um revolucionário. Até que um dia, David Byrn, um grande músico norte-americano, passando por São Paulo, conheceu a música de Tom Zé e o levou para Nova York com ele. Lá, em gravou um disco chamado “Com defeito de fabricação”, que causou certo alvoroço, pois estava na terra da mais alta tecnologia e perfeição. E naquele ano, em 1998, "Com Defeito de Fabricação" de Tom Zé foi lançado aclamado pelo jornal The New York Times como um dos dez melhores álbuns do ano, impulsionando o seu reconhecimento internacional. E hoje, gostaria de lhe prestar esta homenagem e lembrar que teve sentido toda essa sua trajetória, que começou em Irará, com seu folclore e com sua inteligência ingênua e muito popular, passando pela maravilhosa Universidade da Bahia, que encheu a cabeça das pessoas com informações novas, por São Paulo, que jogou a música da melhor qualidade pelo Brasil afora até Nova York, que se curvou diante de suas ideias. E, hoje, tem uma sílaba mágica a nos perseguir: TO, de Astor, quero encerrar esta minha apresentação citando um outro grande artista internacional, um dos maiores escritores da humanidade que também tem dois TOs em seu nome: Tolstói, que disse "Se queres realmente ser universal, comece por pintar bem a tua aldeia". E foi o que Tom Zé fez e por isso estamos trazendo você para nós. Que saiu da ingenuidade de sua terra até conquistar o mundo. Bem-vindo meu querido Tom Zé à Academia Paulista de Letras. Proferido em 17 11 2022 voltar
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