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![]() Acadêmico: José Renato Nalini É preciso reconstituir os fios de legitimidade do poder”. Alguém fala desse projeto nas eleições de outubro de 2026?
Já tivemos estadista Neste melancólico momento em que não se vislumbra um projeto de Brasil, para recuperar o tempo perdido com questiúnculas, polarização, denúncias de escândalos, crescente falta de confiança e de esperança no futuro, é confortador lembrar que já tivemos estadistas no comando. Aos desalentados, recomendo a leitura – ou a releitura – do livro “A arte da política – A história que vivi”, de Fernando Henrique Cardoso, publicado pela Civilização Brasileira. São 699 páginas repletas de episódios da maior importância para esta nação que vive a alegar ser ainda “criança”, embora já conte com meio milênio de colonização. Há testemunhos importantes de quem inaugurou a reeleição, algo que não me parece a melhor alternativa. Mas a parte que motiva a manter acesa a frágil e trêmula chama da esperança que se esvai, é o texto intitulado “Palavras Finais”. É algo como que o testamento desse scholar carioca, paulista e paulistano adotivo, pois aqui viveu décadas, aqui lecionou, aqui continua a residir. Depois de contar que escreveu o livro durante dois anos e meio, ou trinta meses, culminando encerrá-lo em 2006, confessa que, ao relê-lo, sentiu uma certa decepção. “Decepção que não advém da insuficiência das descrições e análises que fiz para resumir o esforço despendido com afinco para melhorar o Brasil, nem de imaginar que nada mudou. Valeu o esforço”. O que decepcionou FHC “é ver o tempo que custou para o país obter os resultados que alcançamos, tão longe ainda do necessário. Por mais que tivéssemos feito, por mais que o Brasil tenha mudado, o mundo não parou e, espiritual sufoquem os avanços conseguidos, provoca em mim, depois da decepção, indignação. Dava para ter liberado mais depressa o país das amarras de um passado que, se teve seus momentos de brilho, hoje funciona como lanterna na popa. Pior, mantendo a pretensão de ser o farol do futuro”. Ele detinha a receita para colocar olhando em volta, fica-se sem saber o grau de avanço relativo”. Depois de perder, entre 1970 e 1980, a corrida com os “Tigres Asiáticos”, que o Brasil considerava quais “meras plataformas de exportação e nós dispúnhamos de um enorme mercado interno, confundindo população com capacidade de compra”, ele profetizou – há 20 anos – perder também para a China e para a Índia. Países que levaram a sério a ciência exata e as tecnologias que transformaram o planeta. Enquanto nós, continuamos a criar mais Faculdades de Direito. Àquela altura, FHC emitiu um desabafo: “Essa sensação de ficar para trás, prejudicando tanta gente, deixando que os bolsões de pobreza material e o Brasil no rumo. Não a recusou a partilhá-la. Ao contrário, foi um político ético, a respeitar os adversários, a tratá-los com urbanidade. A dialogar com eles. Tinha plena consciência de que “o futuro depende de melhor organização da sociedade e do governo, de mais criatividade, mais e melhor educação, mais ciência e tecnologia, menos privilégios, mais competição apoiada no mérito, mais avaliação, mais coragem para mudar. E, sejamos claros, mais decência na vida pública, mais Justiça, menos corrupção e mais segurança para as pessoas”. Quais desses objetivos foram atingidos em 2026? O cenário com que se defrontava FHC em nada melhorou. Existem maiores e mais fortes razões para que a indignação perdure e se intensifique. “A indignação vem de olhar o passado recente e ver que os personagens hoje no poder (pessoas, partidos, forças sociais) resistiram a toda inovação para melhorar o Brasil e agora alardeiam como feito próprio o que brotou das raízes que tanto fizeram para impedir que vingassem. Quanto tempo perdido pela cegueira ideológica, pela falta de humildade para aprender a manejar as políticas públicas e para entender a sociedade. Confesso candidamente minha decepção”. Tudo piorou em tempos de fake News, de pós-verdade, de meia verdade, que é também meia-mentira. Quase 80 dos eleitores não se recordam de quem mereceu seu voto nas últimas eleições gerais, realizadas em 2022. Há um grande desinteresse pela escolha dos representantes, evidência de que a democracia representativa já não seduz e não ilude. Pouco ou nada se faz para implementar a democracia participativa. Pois a participação implica em sacrifício, em trabalho, em atuação crítica, em fiscalização constante. Cuidando exclusivamente do seu quintal, daquilo que diretamente afeta o seu microcosmo, o cidadão relega a política para quem “não tem nada a perder”. Desinteressa-se da renovação do Parlamento, que é hoje, por uma perversão do sistema, o poder mais relevante. Não na concepção clássica de Montesquieu, de formulador das regras do jogo. Mas a função que sequestrou o orçamento e o manipula para atendimento paroquial, sempre distanciado do bem comum. Fernando Henrique Cardoso observou que “o primeiro objetivo para restabelecer a confiança nas pessoas é a diminuição da distância real e emocional entre quem manda e quem obedece. É preciso reconstituir os fios de legitimidade do poder”. Alguém fala desse projeto nas eleições de outubro de 2026? Alguém disposto a ouvir nosso estadista? Publicado no jornal Correio Popular, em 30 08 2026 voltar
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