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![]() Acadêmico: José Renato Nalini Livro tem prefácio de Maria Fernanda Elias Maglio, para quem ‘a literatura é a babel de todas as vozes. EA de Moacyr, carregando o eco de tantas outras, é uma belíssima voz’
O itinerário dos bondes “O itinerário dos bondes”. Esse é o nome do livro de Moacyr Godoy Moreira, com o subtítulo “e outras histórias de desejos irrealizáveis”. São pequenos e instigantes contos. O livro tem duas partes: “Ausência” e “Frágil Projeto de Felicidade”. O prefácio é de Maria Fernanda Elias Maglio, para quem “a literatura é a babel de todas as vozes. E a de Moacyr, carregando o eco de tantas outras, é uma belíssima voz”. O autor transita com desenvoltura por inúmeros assuntos. Há realismo fantástico, em “Paisagem”, com o morto que não se decompunha e que gerou aquele fanatismo próprio a quem quer se agarrar na própria crença. Depois de duas semanas do óbito, “passou a ter filas de peregrinos a beijar os pés e as mãos do emissário divino, sabe-se lá como a notícia havia chegado aos forasteiros, que viajavam distâncias imensas a pé para estar ali”. A busca de crendices é uma constante em povo desesperançado. Causa uma sensação estranha a leitura de “Um mundo de bancos nus”, com a narrativa de uma internação forçada, como ainda se faz quando alguém se comporta de modo estranhável às pessoas incapazes de encarar a multiplicidade de perfis e temperamentos humanos. Vale explorar a cultura antimanicomial, para evitar perversões travestidas de boa intenção. As conjecturas em “Manhã de Carnaval” refletem elucubrações que o excesso de imaginação provoca. Quem é que já não experimentou tal intuição? “Passei a noite tentando me livrar de mim mesmo, na verdade, do fantasma que era a minha própria figura. Mas não consegui”. “Canonização” é uma sátira à multiplicação dos candidatos aos altares, que passa pela contratação de alguém que ganha para ser o operador da burocracia eclesial. Não é barato obter uma auréola e o beneplácito da Igreja. Algo que gera analogia com “A Relíquia” de Eça de Queiroz. O autor é médico, daí a proficiência com que trata da alergia às próprias lágrimas e ao suor, em “Suor e lágrimas”. Também conhecedor dos meandros da administração pública tupiniquim, Moacyr evidencia sua experiência em “Meningite 1970”. O Brasil já não passou por uma fase em que as autoridades da saúde propalavam não existir epidemia, enquanto milhares morriam? Trambicagens da política partidária que se corrompeu e se profissionalizou estão em “Neno”, num final surpreendente, como não raro acontece na vida real nesta bizarra nação. Não podia faltar o jogo de várzea, que já foi diversão popular, antes que as telinhas obnubilassem todas as mentes. A maldosa exploração da boa-fé dos ingênuos está em “Teleatendimento”, relato da genialidade brasileira, tão criativa quando se propõe a lesar o próximo. A contaminação impregna as entranhas de quem adentra nessa areia movediça, da qual nunca mais sairá. E tudo passa a ser o “novo normal”, em país que deixou a ética na UTI durante tanto tempo, que ela feneceu de inanição e sequer foi sepultada. Original e cáustico o conto “As missionárias do Senhor”. Nada como a hipocrisia de quem se esconde sob a fantasia religiosa para distinguir as infelizes que vendem seus corpos, daquelas que fazem o mesmo a pretexto de ajudar a seita. Estas, “as nossas moças são abnegadas servas, que se sacrificam em nome do bem maior, que é a nossa igreja. Essas operárias das escrituras são verdadeiras mártires visando apenas o bem comum: são sem dúvida, antes de qualquer coisa, missionárias do Senhor”. O meu preferido é “O cheiro das árvores”. Estou mergulhado na questão do cataclismo climático. Sustento, assim como o físico e renomado cientista brasileiro José Goldemberg, que a árvore é a melhor tecnologia para equilibrar o regime de chuva, para reduzir a temperatura e para melhorar a qualidade de vida nas cidades. O acelerado desmatamento urbano poderá converter em realidade o projeto de Amadeo, personagem de Moacyr: “...ao se deparar com encantamentos olfativos, num parque arborizado da cidade, Amadeo prometeu a si mesmo que iria viabilizar aos espectadores – nem que fosse a última coisa que fizesse na vida – a oportunidade de experimentar, nos cinemas ou em suas casas, o mais puro cheiro das árvores, oferecido a partir de sua lente multifacetada de luzes, nuances cromáticas e aromas”. Espero não chegue esse dia. Mas, se chegar, foi Moacyr Godoy Moreira quem vaticinou que o cheiro das árvores só poderia ser sentido por mecanismos quais a IA – Inteligência Artificial. Leiam o livro de Moacyr, que também já escreveu “Lâmina do tempo”, “República das bicicletas”, “Ruídos urbanos”, “Soalho de tábua” e “Um certo nascer ali”. Vocês vão gostar muito da literatura que ele labora e nos oferece. Publicado no Estadão/Blog do Fausto Macedo, em 16 05 2026 voltar
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