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O QUE LEMBRAR DESTA ERA?
Acadêmico: José Renato Nalini
Àqueles que ainda não perderam de todo a lucidez e o desconforto ante o festival de imbecilidades que invade nosso tempo e nossa intimidade, conclama-se: reajam!

O que lembrar desta era?

A impressão de que o movimento de rotação da Terra vem recebendo invulgar aceleração não é incomum em nossos dias. À falta de certeza científica, surgem conjecturas. Será o excesso de informação a nos requisitar atenção múltipla e difusa? Serão os inesperados acontecimentos que jogam fora toneladas de estudos sobre como viabilizar civilizada convivência internacional e prestigiar a diplomacia? Ou o advento de uma IA generativa, a mutilar nossos esquemas mentais e a ilusão de que somos donos de nossa vontade?

Talvez um pouco de tudo isso e mais outros componentes. Como será que os contemporâneos registrarão, em seus relatos autobiográficos, aquilo que hoje vivenciam?

Pierre Nora escreveu que “memória é vida. Seus portadores sempre são grupos de pessoas vivas, e por isso, a memória está em permanente evolução. Ela está sujeita à dialética da lembrança e do esquecimento, inadvertida de suas deformações sucessivas e aberta a qualquer tipo de uso e manipulação. Às vezes, fica latente por longos períodos, depois desperta subitamente. A história é a sempre incompleta e problemática reconstrução do que já não existe. A memória sempre pertence à nossa época e está intimamente ligada ao eterno presente: a história é uma representação do passado”.

Houve tempos em que a reconstituição de fatos marcantes era um exercício contínuo de historiadores de consistente formação acadêmica. Hoje, a história parece ter sofrido um refluxo, pois a preocupação é com este fugaz presente e com o exercício de uma sempre falível futurologia. O registro audiovisual de todos os acontecimentos, no âmbito macro e no espaço doméstico a cada dia mais publicizado, talvez iniba o desenvolvimento de pretensiosas epopeias de exaltação de protagonistas que poderiam figurar no panteão dos heróis.

Reproduzir com fidelidade acontecimentos complexos, com intrincados labirintos que nem sempre são inteiramente desvendados, é missão praticamente impossível. Uma narrativa atende primeiramente ao objetivo de quem a faz. Nela estarão suas idiossincrasias, suas preferências, seus preconceitos e pré-compreensões. Já observava Geoffrey Barraclough não ser provável “que um mero relato do desenrolar dos acontecimentos, mesmo em escala mundial, resulte numa melhor compreensão das forças em jogo no mundo hoje, a não ser que, ao mesmo tempo, estejamos conscientes das mudanças estruturais subjacentes. O que precisamos, antes de mais nada, é de um novo quadro analítico e de novos termos de referência”.

Nada disso temos hoje de inteiramente confiável no planeta que, além de sofrer crescentes atentados exterminadores de seus recursos naturais, assiste ao flagelo de conflitos cruentos. Algo que a consciência coletiva, pretensiosamente, banira como hipótese, depois das duas Grandes Guerras Mundiais.

Que fragilidade a de uma espécie que se considera racional e que se porta de maneira tão insensata, a atestar o declínio dos valores e a marcha da involução, ao contrário do que se afirmava na concepção da chamada “espiral de Hegel”.

Parece que a lucidez fugiu da face da Terra e que a humanidade perdeu referências, aboliu qualquer condição de refletir à luz de uma perspectiva histórica. Onde se encontra hoje aquela legião composta de “um número assombroso de historiadores, amadores e profissionais, autores que escreveram sobre cultura, literatura e artes, biógrafos, realizadores de filmes e programas de televisão e, não menos importantes, criadores de moda”, citação de Eric J. Hobsbawm em “A Era dos Impérios”?

O que o mundo “Tik-Tok” e Instagram oferece é a enxurrada de tolices, cenas chulas, humor de gosto ambíguo e superficialidades com predominância de auto exaltação cumulada com disseminação de ira, ódio, deboche e difamação generalizada.

Àqueles que ainda não perderam de todo a lucidez e o desconforto ante o festival de imbecilidades que invade nosso tempo e nossa intimidade, conclama-se: reajam! Como? Escrevendo suas memórias, vinculando-as com episódios que mereçam permanência na consciência coletiva. Sempre com reforço daqueles sentimentos e ideais que já caracterizaram a tentativa de edificação de um convívio realmente civilizado.

Para isso, é preciso acreditar na Razão como nós, os católicos, cremos na Virgem Maria, conforme afirmou Romain Rolland. Ninguém poderia imaginar que no século XXI, no ano de 2026, houvesse o fenômeno de simultânea rejeição da razão e da ciência. Entretanto, é o que parece ocorrer e que angustia quem acreditava que os humanos constituíam a primícia da criação. Você vislumbra a chance de resgatarmos essa convicção hoje sepultada ou adormecida?

Publicado no Estadão/Blog do Fausto Macedo, em 23 04 2026



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