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UM SONHO IMPOSSÍVEL
Acadêmico: José Renato Nalini
É óbvio que aqueles seus amigos que ficaram no Brasil, a participar da neófita República, achavam que esse visionarismo era de um sonhador. Joaquim Nabuco, o principal destinatário das missivas de André Rebouças, estava tão longe dos projetos do amigo exilado, que este chegou a acreditar que o amigo estava envenenado pela política e pelo militarismo

Um sonho impossível

Os sonhadores são necessários ao mundo tosco dos medíocres. Um dos visionários brasileiros que não lograram converter em realidade suas ambiciosas aspirações foi André Rebouças. Homem desde o nascimento marcado pelas vicissitudes. Era negro e nasceu em 1838, cinquenta anos antes da Abolição. Estudou engenharia, especializou-se na Europa, adquiriu cultura sofisticada, muito fez por sua Pátria. Que, como é de costume, pagou com ingratidão e esquecimento.

Fidelíssimo a Dom Pedro II, acompanhou a Família Real no exílio, depois do golpe de 15.11.1889. Mas não deixou de sonhar com o Brasil que fora tão ingrato para com o magnânimo Imperador.

Em Portugal e na França, continuava a se corresponder principalmente com Joaquim Nabuco. Propunha a continuidade dos “nossos trabalhos de 1888 e 1889 para a Confraternização, Paz e Tranquilidade nessa mísera América do Sul. Vamos expiar os crimes de nossos avós portugueses e espanhóis: do Cardeal Ximenes e Torquemada para com os míseros Hebreus. O Brasil e a Argentina devem doar toda a zona litigiosa ao Barão Hirsh, para colocar nela emigrantes Hebreus. Para que a Argentina quer terras? Para dar a emigrantes. Por que o Brasil quer terras? Para dar a emigrantes”.

A sua proposta era a obtenção da Paz Perpétua, “por neutralização absoluta do território litigioso” (eram tempos de conflitos no sul do País, que punham em risco a integridade do solo pátrio). A ideia era criar “uma Mesopotâmia entre o Paraná e o Uruguai, um novo Eden, superior ao de Moisés. Evitando toda e qualquer tendência belicosa, porque os Hebreus não têm exército, nem armada, nem cônsules parasitas, nem diplomatas intrigantes”.

Em outra carta, sugere a realização de um Congresso de Paz e Liberdade, cujo programa conteria sete itens:

1. Terminar Conflitos Missões, Guianas e congêneres;

2. Abolir o protecionismo; adotar as tarifas aduaneiras e as taxas de Docas de Londres e de Liverpool;

3. Adotar o Imposto Territorial, calculado sobre a superfície possuída;

4. Abolir o sistema bancário ianque. Dar curso legal na América do Sul às notas dos Bancos da França e da Inglaterra;

5. Adotar o sistema monetário da União Latina;

6. Desarmamento geral. Polícia urbana do tipo inglês. Polícia rural tipo francês;

7. Imigração livre. Abolir os contratos. Adotar o novo tipo de Emigrantes-Proprietários, embarcando na Europa com o seu título Torrens Provisório.

Quem é que poderia negar coerência à proposta. Cada um dos sete itens do programa foi elaborado com minúcias e detalhes, com argumentação adequada, nos textos que seguidamente enviava à Revista de Engenharia.

É óbvio que aqueles seus amigos que ficaram no Brasil, a participar da neófita República, achavam que esse visionarismo era de um sonhador tão extraordinário, que é quase doloroso medir a distância entre seus ideais e a realidade das coisas. Joaquim Nabuco, o principal destinatário das missivas de André Rebouças estava tão longe dos projetos do amigo exilado, que este chegou a acreditar que o amigo estava envenenado pela política e pelo militarismo.

Outra proposta de André Rebouças que não logrou êxito, não era tão pretensiosa. Era escrever um livro sobre Dom Pedro II, em parceria com Afonso de Taunay e Joaquim Nabuco. Justificava: “Nós, Nabuco, Taunay e André Rebouças, fomos, durante os últimos anos do reinado de D. Pedro II, de 1880 a 1889, os propagandistas de todas as ideias nobres, progressistas e liberais nas Sociedades de Abolição e de Imigração. Não podemos fazer maior benefício à Posteridade Brasileira do que legar-lhe um livro, que será o Evangelho de D. Pedro II. Evangelho de amor sincero no Brasil. De Trabalho e de Abnegação em prol da Pátria e da Humanidade”.

Esta empreitada teria sido plenamente possível de vir a ser realizada. Não houve alguém tão fiel e tão admirador do monarca destronado. Ele falava em “Imperador-Mártir, Imperador-Jesus, Imperador da Anistia e do Perdão, Santo Velho, Meu Bom Mestre. Em toda sua correspondência, mesmo depois da morte de D.Pedro, em dezembro de 1891, as referências eram de muito afeto, reverência, muito sentimento, muita elevação.

Existirão hoje seres assim? Sonhadores, visionários, além de tudo apóstolos praticantes da singela e fraca virtude da gratidão?

Publicado no Estadão/Blog do Fausto Macedo, em 05 02 2026



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