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![]() Acadêmico: José Renato Nalini A Represa de Guarapiranga não é apenas um cenário bonito visto da janela. É um ativo estratégico da metrópole. Um recurso sem substituto imediato. E, sobretudo, uma condição de vida, saúde e economia.
Depois que o poço seca, o povo descobre o valor da água Por José Renato Nalini e Roberto Luis Troster Guarapiranga é o manancial que São Paulo não pode perder. Mas corre o risco de aprender isso do pior jeito: quando a água faltar, quando o abastecimento se tornar instável, quando a torneira virar incerteza e quando já não houver tempo político, técnico e financeiro para soluções fáceis. A Represa de Guarapiranga não é apenas um cenário bonito visto da janela. É um ativo estratégico da metrópole. Um recurso sem substituto imediato. E, sobretudo, uma condição de vida, saúde e economia. A água da Guarapiranga integra o cotidiano de milhões de pessoas. Mas a cidade tem convivido com um paradoxo perigoso: dependemos do manancial e, ao mesmo tempo, permitimos que ele se degrade. A Guarapiranga foi construída pela Light entre 1906 e 1908 e inaugurada em 1908, inicialmente conhecida como Represa de Santo Amaro. Seu objetivo era regular vazões para a geração de energia na Usina de Parnaíba. Com o crescimento da cidade, tornou-se fonte de abastecimento a partir de 1928. Ao longo do século, passou a combinar abastecimento, lazer e valorização do entorno, com clubes, esportes náuticos e bairros marcantes. Hoje, é um dos principais mananciais da Região Metropolitana. Estima-se que abasteça cerca de 4 milhões de pessoas, sobretudo nas zonas Sul e Sudoeste. A água captada no reservatório é enviada para tratamento na ETA Alto da Boa Vista e então distribuída. A infraestrutura existe. O problema está em outro lugar: na saúde do manancial. A situação da Guarapiranga é mais do que preocupante. A ocupação irregular de suas margens, a perda de vegetação e o avanço urbano desordenado geram assoreamento, reduzindo a profundidade útil e a capacidade de armazenamento. Esse processo não é apenas um “dano ambiental”: é uma redução concreta de segurança hídrica. Pior: a ausência de coleta e tratamento de esgoto em partes relevantes da bacia transforma córregos e afluentes em condutos de carga orgânica. Quando esgoto in natura entra no sistema, o custo é duplo. Primeiro, destrói o ecossistema aquático, com aumento de nutrientes, eutrofização e proliferação de algas e macrófitas. Depois, impõe ao tratamento de água uma tarefa cada vez mais difícil e cara: transformar uma água bruta degradada em água potável. A população sente isso de modo direto, no corpo e no bolso. O problema aparece como gosto e odor na água, como episódios de coloração escura ou turva, como uma sensação de perda de qualidade que mina a confiança no serviço essencial. Pode haver dias em que a água esteja dentro dos parâmetros normativos e ainda assim pareça inadequada para consumo. Isso revela uma verdade incômoda: cumprir um padrão mínimo não é o mesmo que entregar qualidade consistente. É importante distinguir: a água distribuída deve atender aos padrões de potabilidade estabelecidos pelo Ministério da Saúde. Mas, quanto mais degradada é a água na origem, mais “heroica” se torna a operação na ponta. Exige mais produtos químicos, maior esforço de filtração, maior risco de instabilidade e maior custo de operação. A cidade não deve aceitar o caminho em que a solução passa a ser apenas “dosar mais” e “remediar sempre”. Além disso, cresce no mundo a preocupação com poluentes emergentes, como resíduos de fármacos e microplásticos. Mesmo quando ainda não há consenso absoluto sobre todos os impactos de longo prazo, o sentido de precaução é obrigatório: não faz sentido ampliar a vulnerabilidade do manancial e colocar a saúde pública em posição reativa. O Instituto de Engenharia e especialistas têm reforçado alertas sobre o estágio de deterioração da Guarapiranga. A mensagem central é inequívoca: entre os mananciais que abastecem a metrópole, a Guarapiranga figura entre os mais pressionados e sua recuperação deveria ser tratada como prioridade estratégica. Em outras palavras: não se trata de uma pauta ambiental “bonita”. Trata-se de abastecimento, saúde e continuidade econômica. Sem água, não há produtividade, não há bem-estar, não há dignidade. Parte da explicação para o impasse é conhecida: as responsabilidades são fragmentadas. O Estado atua na gestão hídrica e ambiental. A Prefeitura é decisiva na ocupação do solo. A concessionária opera e trata, mas não tem poder de polícia sobre o poluidor. Órgãos de fiscalização atuam, mas com limitações operacionais diante do ritmo do dano. A OIDA — Operação Integrada em Defesa das Águas, é um passo importante, mas precisa de escala, permanência e metas verificáveis. O problema não é a falta de iniciativas, e sim a falta de convergência e comando efetivo sobre aquilo que, na prática, decide o destino do manancial: esgoto e ocupação. O que precisa ser feito, sem romantismo. Não existe bala de prata. Existe um plano realista, em três camadas. A primeira é atacar a causa: universalizar coleta e tratamento de esgoto na bacia, eliminar pontos de lançamento e acelerar conexões, inclusive em áreas irregulares, tratando saneamento como requisito de saúde pública, não como prêmio condicionado à regularização urbanística. A segunda é proteger o território: fiscalizar ocupação predatória, recuperar mata ciliar, conter erosão e impedir novos avanços que destruam a capacidade natural de filtração e de retenção de sedimentos. A terceira é reforçar a resiliência do sistema: modernizar a resposta operacional e garantir qualidade até a torneira — porque qualidade também é rede, pressão, manutenção e previsibilidade. Antes que o poço seque. Há países e regiões que já estão pagando caro por negligência hídrica. Em alguns casos, discute-se até mudança de capital diante do colapso de abastecimento. São Paulo não pode flertar com esse roteiro. A Guarapiranga ainda pode ser recuperada. Mas isso exige decisão política, coordenação e investimento continuado. Não se recupera um manancial com discursos; recupera-se com esgoto tratado, mata preservada, ocupação controlada e governança que funcione. Porque água não é detalhe da vida urbana. Água é a condição de existência da cidade. E quando o poço seca, não existe retórica que o encha. Publicado no jornal O Valor Econômico, em 04 02 2026 voltar
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