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O IRRESISTÍVEL CHARME ACADÊMICO
Acadêmico: José Renato Nalini
Inegável a profunda mutação estrutural que São Paulo sofreu, a partir de 1828. A vida universitária revolucionou São Paulo e o charme acadêmico a transformou.

O irresistível charme acadêmico

Desde o funcionamento do primeiro curso jurídico no Brasil, o das Arcadas do Largo de São Francisco, em 1828, a vida paulistana mudou drasticamente. A cidade pacata e provinciana viu-se invadida de jovens de todo o Brasil, que aqui vieram com seu bulício, o seu entusiasmo, formaram suas “repúblicas” e revolucionaram os costumes.

Envolviam-se em episódios insólitos e quando a autoridade policial era chamada, em regra apoiava os acadêmicos. Isso tornava ainda mais ressabiada a gente local. Era conhecida a sua constante esquivança, pois o paulistano era suspeitoso em relação a gente desconhecida. Não se congraçava com o rapazio acadêmico. Temia pela sorte de suas donzelas, estas muito curiosas em relação aos estudantes de direito.

Ao contrário dos bandeirantes, o paulistano do século XIX era sedentário. Não se viajava. Mesmo entre pessoas abastadas, muitas nunca chegaram a ver o mar. Nem haviam transposto as serras que orlam o horizonte de São Paulo e seus subúrbios.

Isso foi constatado por Augusto Emílio Zaluar, um jornalista e homem de letras nascido em Lisboa, mas naturalizado brasileiro. Durante cerca de dois anos viajou pela Província de São Paulo e chegou a privar da intimidade dos acadêmicos, observando-lhes os hábitos, a psicologia e o relacionamento entre eles e a sociedade local. Dizia fazer “turismo em lombo de animal”.

O motivo dessas viagens era angariar assinaturas para o jornalzinho “O Paraíba”, por ele editado em Petrópolis. Queria conseguir assinantes remidos, que pagassem pagamento total antecipado e receberiam o jornal enquanto vivessem.

Ao descrever São Paulo em 1860, ele dizia: “Apesar da majestosa natureza que a circunda, da suave elevação em que se acha colocada e do ameno clima que a bafeja, a cidade de São Paulo é triste, monótona e desanimada. Quando os estudantes da Faculdade de Direito vão a férias, então é que se reconhece melhor o que acabamos de dizer e tivemos ocasião de verificar a mocidade acadêmica imprime à povoação, durante a sua residência nela, uma espécie de vida fictícia, que, apenas interrompida, a faz recair, por assim dizer, no seu estado de habitual sonolência”.

A passagem de Zaluar por São Paulo, de acordo com Salvador de Mendonça, marcou época entre os estudantes. Eles analisavam com humor a história das “assinaturas remidas”. Inventaram, além disso, um neologismo, o verbo “Zaluar”, para exprimir aquilo que é muito frequente e não nos deixa em paz”. Isso foi objeto de reportagem de Brito Broca, publicada na “Gazeta”, além de constar dos “Anos Acadêmicos” de Peçanha Póvoa.

Também no “Correio Paulistano” há vários textos noticiando a estada de Zaluar na Capital. Assim, na edição de 26 de janeiro de 1861, constou que no teatro, por ocasião de espetáculo de Eugênia Câmara, fora representada a comédia de Zaluar “A viuvinha, ornada de música”. O próprio autor, Zaluar, e o estudante Antonio Manuel dos Reis distribuíram poesias no teatro e estas foram reproduzidas no Correio. Noutra ocasião, o mesmo jornal informa, em 1º de fevereiro de 1861, que o estudante Reis recitou no teatro, dedicada ao ator Furtado Coelho, uma poesia de Zaluar, que não compareceu por motivo de saúde.

Interessante a leitura de “Peregrinação pela Província de São Paulo – 1860-1861?, escrita por Zaluar. Como alguém que não residia aqui, ele teve condições de proceder a sereno diagnóstico: a antiga cidade dos jesuítas deve se considerada, pois, sob dois ângulos. A capital da província e a Faculdade de Direito; o burguês e o acadêmico; “a sombra e a luz; o estacionarismo e a ação, a desconfiança de uns e a expansão, muitas vezes libertina, de outros e, para concluir, uma certa monotonia da rotina personificada na população permanente, e as audaciosas tentativas do progresso encarnadas na população transitória e flutuante”.

Inegável a profunda mutação estrutural que São Paulo sofreu, a partir de 1828. A vida universitária revolucionou São Paulo e o charme acadêmico a transformou nesta complexa e gigantesca megalópole, cosmopolita e instigante.

Publicado no Blog do Fausto Macedo/Estadão
Em 18 09 2023



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