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RUSGAS IMPERIAIS
Acadêmico: José Renato Nalini
Pedro II enfrentava o "fogo amigo" com frequência e com serenidade.

Rusgas imperiais

Praticamente meio século de magnânimo exercício de poder não significou total tranquilidade ao estadista que governou o Brasil até 1889. Pedro II enfrentava o "fogo amigo" com frequência e com serenidade.

Narra-se que Américo Brasiliense de Almeida Melo, nome que se eternizou até em município paulista que o homenageia, era um desses "rebeldes" contra a Coroa. Nascido em 1833, cursou a São Francisco entre 1851 e 1855 e, por ser excelente aluno, depois de advogar em Sorocaba defendeu teses em 1860 e obteve o grau de Doutor em Direito.

Disputou por duas vezes o concurso a uma vaga de lente da Faculdade. Em 1869, ficou em segundo lugar, vencido por Almeida Reis. Mas o terceiro colocado é que veio a ser nomeado: Leôncio de Carvalho. Em 1882, novamente obteve a primeira classificação e conseguiu a Cátedra. Mas atribuía não ter sido o escolhido em 1869, à circunstância de não se simpático ao Imperador.

Desde 1858, apenas com interrupção do biênio 1864-1865, foi deputado à Assembleia Provincial de São Paulo. Isso porque em 1864, por problemas de saúde, foi tratar-se na Europa, acompanhado de sua mulher, Marcelina Lopes Chaves, filha dos Barões de Santa Branca e com a qual se casara em 1862.

Américo Brasiliense presidiu a Província da Paraíba do Norte entre 1866 e 1867 e a do Rio de Janeiro em 1868. Fundou, com Luís Gama, Américo de Campos, Ferreira de Menezes e outros democratas, a "Loja América", um efervescente nicho de propaganda republicana e abolicionista. Interessante observar que os integrantes da maçonaria não podiam ter escravos. Assim, quando lhe coube em herança do Barão e Baronesa de Santa Branca um certo número de escravos, libertou-os de imediato.

Em 1875, D. Pedro II veio a São Paulo. Anunciou que teria muita satisfação com a visita de Américo Brasiliense. Este ficou sabendo e ficou constrangido: não visitar o Imperador, que se mostrara tão amável? Mas era militante republicano e não ficava bem o beija-mão ao monarca. Então resolveu fazer-se representar. Solicitou a seu amigo Dr. Falcão Filho, fizesse chegar ao Imperador os seus cumprimentos.

Quando o emissário contou ao Imperador, este explicou: - "Muito obrigado! Muito obrigado! Ele não imagina quanto tenho sentido a atitude política em que se colocou, incompatibilizando-se politicamente para tantas comissões a que o destinavam o seu talento e o se patriotismo. Sempre fui muito apreciador do espírito de justiça com que ele se houve nos cargos administrativos que desempenhou. Tive grande desgosto com essa precipitação, e não sei, na verdade, a que atribui-la. Terá sido motivada pelo desgosto da preterição no concurso para lente da Faculdade? Pois é, se é isto, ele que indague: há de verificar que era o meu candidato. Tive que ceder... mas era ele o meu candidato. Diga-lhe isto mesmo, eu lhe peço".

Falcão Filho deu o recado a Américo Brasiliense. Este ficou irritado: "Pois você não se lembra de que foi exatamente a pecha de "feroz republicano", contra mim articulada, que deu causa à minha preterição e à nomeação de Leôncio? Eu era já, portanto, republicano; e assim, não se pode dizer sem anacronismo que tenha sido o desgosto por esta preterição que me impeliu a virar casaca".

A interpretação fez com que Américo Brasiliense repudiasse a carinhosa manifestação do Imperador. O monarca apenas afirmou que seu candidato à cátedra era Américo Brasiliense e que sentia sua falta e lamentava não poder encarrega-lo de atribuições imperiais, já que abraçara o republicanismo.

Só que Américo Brasiliense foi perdendo o elã em relação à República. No dia mesmo do golpe, 15 de novembro de 1889, seus amigos foram visita-lo e abraça-lo. Encontraram-no sem entusiasmo, frio mesmo, quase indiferente. E explicou a razão dessa postura: "Auguro mal desta república feita por soldados. Quisera que ela não viesse hoje para poder ser duradoura e felicitar o povo. O militarismo que aí vem, que aí está, nos há de trazer torturas. Mas, já que está feita assim a república, trabalhemos para concertá-la".

Ainda assim, aceitou do Marechal Floriano Peixoto nomeação para o Supremo Tribunal Federal, função que exercia quando de seu falecimento, no Rio de Janeiro, no Hotel Bragança, em 25 de março de 1896.

Publicado no Blog do Fausto Macedo/Estadão
Em 14 08 2023



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