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HORAS DO BOM TEMPO
Acadêmico: José Renato Nalini
Os bons tempos, para as primeiras turmas da São Francisco, eram aquelas vivenciadas por acadêmicos que mudaram a provinciana capital bandeirante.

Horas do bom tempo

Os bons tempos, para as primeiras turmas da São Francisco, eram aquelas vivenciadas por acadêmicos que mudaram a provinciana capital bandeirante. Lúcio de Mendonça assim denomina o livro em que relata episódios de sua passagem pelas Arcadas, acrescentando como subtítulo “Memórias e Fantasias”.

Conta o que faziam os irrequietos futuros bacharéis, principalmente aqueles que moravam na “Comuna” e que, portanto, eram chamados “comunistas”. O chefe dessa “República” era Ribeiro da Luz, que orquestrava as diabruras da turma. Alugou-se um sobrado à rua Senador Feijó, que pertencia ao Coronel Cantinho. Ele nem imaginava o que viria a sofrer com essa locação.

Os inquilinos colocaram na sacada da frente um manequim, que se tornou o porta-voz dos moradores. Era a única figura que se via à janela e que dava as boas-tardes à família do senhorio e vaiava os lentes que passavam. Consequência imediata: a família fechou aquele lado da casa e os professores abstiveram-se de passar por aquela rua.

Mas a família continuou sem sossego. Numa tarde de tempestade, os jovens “comunistas” amealharam bacias, bandejas, panelas e tudo o mais que encontravam, acumulando o conjunto sobre a mesa de jantar. A um sinal dado, viraram a mesa, fazendo um grande estrondo. Ingenuamente, a bondosa família veio a indagar se algum dos moços havia sido vítima do raio.

Outra façanha, esta mais prolongada, foi o furto noturno de tabuletas e emblemas das casas comerciais da cidade. A coleta pitoresca foi sendo guardada em um dos cômodos da República. Entre os “troféus” furtados avultava, gloriosamente, um grande veado dourado, da farmácia “O Veado de Ouro”, da rua São Bento. O dono fez publicar no Correio Paulistano um anúncio pedindo o emblema de volta, mediante paga de recompensa.

Jorge Seckler era proprietário de uma casa de objetos de escritório e tipografia, chamada “Ao Livro Verde”. A insígnia era escrita em letras douradas num grande livro de madeira de cor verde. Mas mandou fazer outra placa: “Ao Livro Verde-II”. Mal a colocou, recebeu de Ribeiro da Luz, que comprara uma caneta, o recado sutil: - “Apronte logo o III! E os próximos algarismos romanos também...”

A polícia sabia quem eram os autores desses furtos. Chega um dia em que todos recebem um convite para a grande exposição de despojos de guerra, seguida de procissão, à uma da madrugada, saindo das Arcadas.

À hora marcada, iniciou-se a caminhada com a estupenda coleção de tabuletas e emblemas furtados. O “Veado de Ouro” era a peça principal e estava num andor todo enfeitado.

Houve discursos entusiásticos a condenar a prática abusiva de particularizar com letreiros e insígnias a abusivíssima propriedade privada. A ideia era, ao final da procissão, atear fogo aos produtos de uma civilização fetichista, abominavelmente egoísta, quando surge a polícia e dá voz de prisão a todos os presentes.

Para enfrentá-la, apresentou-se Ribeiro da Luz. E discursou:

- “Rendemo-nos à discrição. Entregamos à soldadesca desenfreada o fruto das nossas vigílias. Cevai os vossos instintos brutais naquela casta filha do Oceano (e com gesto inspirado, designava a “Sereia Paulista”, emblema de uma casa de banhos); saciai o bárbaro apetite nas carnes saborosas daquele íncola de nossas selvas (e mostrava o Veado de Ouro); reduzi a cativeiro degradante aquele herói nunca vencido! (e indicava um soldadinho de gesso, com a espada desembainhada e com a inscrição “Ao guerreiro invicto”, símbolo de um armazém). Mas contai, patifes, com a maldição da História!”

Saíram todos, escoltados pela polícia, do Largo de São Francisco à rua Senador Feijó, endereço da “Comuna”. Chegando ali, os alunos entraram apressadamente, escadas acima, e da sacada, pela boca do manequim, convidavam a polícia embasbacada a uma ceia frugal, mas de muita boa vontade.

Eram tempos de pândega, com os quais o arredio e acanhado paulistano não estava acostumado. Mas teve de se acostumar, porque a rapaziada do Largo de São Francisco foi parte decisiva da cosmopolitização de São Paulo, até que ela chegasse à condição de centro nervoso e vibrante desta República.


Publicado no Blog do Fausto Macedo/Estadão, em 06 12 2023



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