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CAUSOS PAULISTANOS
Acadêmico: José Renato Nalini
O resgate desses episódios ajuda a conhecer a vida como ela é.

Causos paulistanos

A História convencional é o relato dos vencedores. Enfatiza datas, elege heróis, adota viés ufanístico, pois destinada a fazer com que as atuais gerações venerem as antigas.

É válida e importante. Mas não encerra tudo o que aconteceu numa época. Daí o interesse em buscar relatos que não envolvem personagens icônicos, mas contemplem o microcosmo em que vivem pessoas normais. Os quase anônimos. O resgate desses episódios ajuda a conhecer a vida como ela é. E conhecer pessoas que não mereceram o miolo das obras adotadas nas escolas.

Talvez nenhum dos meus presumíveis leitores tenha ouvido falar de Joaquim Manuel Gonçalves de Andrade, que nasceu na Ilha da Madeira, mais exatamente na Freguesia do Campanário, em 7 de novembro de 1807. Era sobrinho de Dom Manuel Joaquim Gonçalves de Andrade, o quinto bispo de São Paulo.

Estudou humanidades em Funchal, assim como teologia, para uma carreira eclesiástica bem sucedida em São Paulo. Ordenado em 1831, no ano seguinte matriculou-se no Curso Jurídico. Escrivão da Câmara Eclesiástica, visitador do Bispado, Cônego da Catedral, vigário capitular, vigário geral governador do bispado, arcediago, presidente do cabido e monsenhor honorário da Capela Imperial.

Sempre cogitado para ser bispo. Mas como acontecia e continua a acontecer com os paulistas, quando o Governo Imperial resolveu nomeá-lo bispo - a religião católica era oficial - dossiês de adversários fizeram chegar ao imperador e ao ministro do Império cartas anônimas. Todas contendo, fosse verdade ou não, antigos pecados do sacerdote.

Cônego Gonçalves de Andrade teve assento na Assembleia Provincial desde 1840 até 1859. Foi vice-presidente da Província e chegou a exercer, efetivamente, o governo de São Paulo.

Uma característica sua era a tolerância e a afabilidade. A todos tratava com polidez e delicadeza, independentemente de fortuna e status. Por isso, era constantemente assediado por toda espécie de pessoas.

Certa feita, foi procurado pelo Padre Joaquim de Assunção Saldanha, mais conhecido como "Padre Bacalhau". Vinha pedir um emprego. Mas qual o emprego que Monsenhor Gonçalves de Andrade poderia lhe dar?

- "Qualquer emprego, monsenhor, ainda que seja o de sacristão!".

- "Isto não posso fazer, Padre Joaquim. O senhor sabe disso. Está suspenso das ordens...". Padre Bacalhau havia feito tantas e boas, que fora proibido de celebrar. Mas insistia com o bondoso amigo:

- "Mas, então, Monsenhor, devo continuar nesta vida de ocioso e vagabundo, que até os estudantes já puseram em canções báquicas?"...

- "Não aconselho isso, mas tive uma ideia: por que não arranja um emprego civil?".

- "Poucos são os empregos civis que se compadecem com o meu caráter sacerdotal..."

- "Mas o que acha de ser professor, por exemplo?"

- "Só se for o de professor público".

Ambos sabiam que a nomeação de professor da rede pública de ensino era atribuição do Presidente da Província, esse o cargo depois exercido pelo Governador do Estado.

Padre Bacalhau se entusiasmou. Pediu que Monsenhor Gonçalves de Andrade o recomendasse ao Presidente da Província.

- "Não se faz necessária a recomendação. O Dr. João Teodoro o conhece bem e, principalmente, é um homem de muito bom coração!".

O interessado no emprego não se fez de rogado. Foi correndo à sede do governo local e foi recebido por João Teodoro.

- "Venho pedir a Vossa Excelência um emprego, o de professor..."

- "Muito bem, Senhor Padre. Vamos a isso. Conte-me, porém, como lhe veio essa ideia."

- "Foi o Cônego Joaquim que me sugeriu..."

- "Ah! Foi o Cônego Joaquim? Pois diga-lhe que não tem dúvida. Faço a nomeação. É necessário, porém, que ele, primeiramente, lhe restitua as ordens!".

Deu-se que o Padre Bacalhau teve de fazer aquela romaria de Herodes a Pilatos. Voltou ao Vigário-Geral e relatou a resposta do Presidente. Como tanto Monsenhor Andrade como João Teodoro eram amigos, ambos sabiam que estavam a se desembaraçar do pretendente. Monsenhor prometeu restituir as ordens, desde que o Padre Bacalhau fizesse um retiro espiritual de alguns meses no Seminário da Luz ou num outro convento da capital.

Achando que a proposta era muito séria e sacrificada, Padre Bacalhau ficou de pensar. E não voltou mais ao assunto.

Monsenhor Gonçalves de Andrade morreu em 7 de fevereiro de 1879. Era uma pessoa muito querida dos paulistanos. Você já tinha ouvido falar dele?

Publicado no Blog do Fausto Macedo/Estadão
Em 08 06 2023



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