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A IRMÃ ESQUECIDA
Acadêmico: José Renato Nalini
Alguns brasileiros ainda se lembram da Princesa Isabel, a filha importante do segundo Imperador do Brasil, o magnânimo Pedro.

A irmã esquecida

Alguns brasileiros ainda se lembram da Princesa Isabel, a filha importante do segundo Imperador do Brasil, o magnânimo Pedro. Poucos sabem que havia uma segunda filha, Leopoldina, nascida no Rio de Janeiro, a 13 de julho de 1847. Quando contava dezessete anos, chegam ao Rio o Conde d'Eu e o Duque de Saxe. O Imperador pretendia casar o Conde com Leopoldina e o Duque com Isabel. Mas, segundo esta mesma, "Deus e nossos corações decidiram diferentemente, e a 15 de outubro de 1864 tinha eu a felicidade de desposar o Conde d'Eu".

Dizem os cronistas da época ser Leopoldina mais bela do que Isabel. Sua beleza era comparável à da Princesa de Joinvile, D. Francisca, sua tia e madrinha e lembrava também Amélia de Beauharmais, neta de Josefina Bonaparte e segunda mulher de Pedro I.

Isabel por três vezes foi Regente do Império, era a herdeira da Coroa, a Redentora dos escravos. Por isso é mais fácil se lembrar dela do que da irmã, que teve tão curta vida.

O marido de Leopoldina, Luís Augusto de Saxe Coburgo Gotha, o Duque de Saxe, era irmão do futuro Czar dos búlgaros, sobrinho de D. Fernando, marido da Rainha Maria II de Portugal. Primo do Rei Leopoldo da Bélgica e do Príncipe Alberto, o bem-amado marido da Rainha Vitória da Inglaterra. O Duque nasceu no Castelo d'Eu, na França, a 9 de outubro de 1845, dois anos mais velho do que a mulher.

O casamento de Leopoldina e Luís Augusto, para não coincidir com o de Isabel e Conde d'Eu, foi celebrado em 15 de dezembro de 1864. Enquanto o cunhado foi nomeado Marechal do Exército Brasileiro, o Duque ficou como Almirante da Esquadra Imperial.

A 29 de março de 1866, nasceu no Rio de Janeiro o Príncipe D. Pedro de Alcântara Augusto Luís Maria Miguel Gabriel Rafael Gonzaga, que ficou conhecido como Pedro Augusto, o neto preferido do Imperador e da Imperatriz. Até porque, durante nove anos, de 1866 a 1875, ano do nascimento de D. Pedro de Alcântara, o primogênito de Isabel e do Conde, Pedro Augusto era o herdeiro presuntivo da Coroa.

O segundo filho do casal foi D. Augusto Leopoldo, nascido no Rio de Janeiro a 6 de dezembro de 1867. Conquistador como o bisavô, Pedro I, casou-se em 1904 com D. Carolina, Arquiduquesa da Áustria, com quem teve oito filhos. Em 21 de maio de 1869, nasceu também no Rio o terceiro filho, D. José Fernando, que faleceu solteiro em 1888. O quarto, Luís Gastão, nasceu no Castelo de Abenthal e a 14 de setembro de 1870, veio para o Brasil e se casou duas vezes: a primeira com a Princesa Matilde da Baviera e a segunda com a Condessa Maria Ana de Trauttmansdorf-Weinsberg.

A Princesa Leopoldina, que estava na Europa desde 1870, morreu aos vinte e quatro anos, levada pelo tifo, no Castelo de Abenthal. Isso fez com que o Imperador e D. Tereza Cristina se afeiçoassem ainda mais ao neto Pedro Augusto: era a presença da filha, que partiu tão cedo.

Conta-se que numa noite, já adolescente, Pedro Augusto foi a uma festa e só voltou com o dia nascendo. Ao entrar em seu quarto, no Paço de São Cristóvão, deparou-se com o Imperador-avô, deitado em sua cama e lendo um livro. D. Pedro II levantou-se e disse, a sorrir: "Filho, a cama dum rapaz solteiro não deve ficar abandonada a noite inteira. Vi-a tão solitária que lhe vim fazer companhia. Peço-te apenas que me não obrigues a repetir esta noitada, porque os velhos não devem alterar seus hábitos e só tu me obrigarias a isto".

A afeição era recíproca: o neto adorava os avós. Por isso, foi ele quem sofreu mais o golpe desferido contra o Imperador em 15 de novembro de 1889. Ele estava a percorrer o mundo, a bordo do "Almirante Barroso", sob o comando de Custódio José de Melo. Em Colombo, capital da ilha do Ceilão, chegou a notícia da proclamação da República e a ordem para desembarcar o Príncipe.

Isso afetou a sanidade mental do Príncipe. Teve de ser internado e, quando estava quase recuperado, a morte do avô - para ele verdadeiro Pai - exilado em Paris, no Hotel Bedford, fez com que a insanidade voltasse e de forma irreversível. Internado no Hospício de Tulln, na Áustria, ali faleceu a 7 de julho de 1934.

O irmão, Augusto Leopoldo, marido da Arquiduquesa Carolina da Áustria, fez brilhante carreira na Marinha Austríaca e sentia muita falta do Brasil. Não chegou a se valer da revogação do banimento da Família Imperial, pelo Presidente Epitácio Pessoa. Morreu a 11 de agosto de 1922, no Castelo de Schladming.

O Palácio Duque de Saxe, onde a família residiu enquanto no Brasil, foi redecorada pelo Príncipe Pedro Augusto. Com a proclamação da República, tudo se dispersou e foi arrematado na bacia das almas, em apressado leilão. A casa foi entregue ao Ministério da Guerra e depois demolida. Dois dunquerques estavam no Museu Histórico Nacional. Consumidos pelo fogo que destruiu nossas relíquias em 2018.

Publicado no Blog do Fausto Macedo/Estadão
Em 31 03 2023



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