Discurso de posse dia 10/11/2011
Nunca em
minhas pretensões antevi cena como esta.
Mesmo sendo hospede permanente do
imprevisível,
pois,
sou devoto de
Nossa Senhora do
Acaso,
não sei bem por onde começar.
Talvez pela franqueza de
confessar que a Academia
não estava no
meu horizonte de
desejos até que uma generosa e
irresistível conspiração de
afetos intimou-me a
sair do
casulo e
apresentar-me ao voto soberano dos
seus acadêmicos.
Não me
faltava o
desejo de
fazê-lo,
reconheço,
mas é que considerava minha trajetória modesta e
minha biografia praticamente encerrada e
já sem ímpeto para grandes saltos,
quando amigos e
amigas daqui da Academia e de
fora,
foram reabrir-la,
introduzindo esse capítulo que considero um dos
mais honrosos. E
que me
trouxe um
sentimento de
jubilo.
Jubilo é bem a
palavra,
melhor que euforia que tem um toque de
espevitamento;
jubilo é algo profundo que me
alegra por dentro, me
toma o
coração e explode
num sorriso permanente que não consigo controlar.
É jubiloso ser distinguido por um
colégio qualificado e
independente que decide
por razões auto-justificadas no
âmbito exclusivamente pessoal e
intocável de
cada um dos
seus membros.
Especialmente quando se
é recebido com
palavras tão acolhedoras e
tão generosas de
José Renato Nalini,
magistrado vertical,
que sabe que a
sentença é o
fruto do
diálogo da lei, com o
fato, a
prova e o
discernimento do
juiz.
Daí a
necessidade do
juiz ser culto,
tecnicamente preparado e,
especialmente dotado da sabedoria das coisas e do
mundo.
É assim,
exatamente assim que é Nalini que se fez
articulista, professor e
escritor,
cujo alto e
diversificado espírito,
inspira,
acelera e
clarifica o pulsar
dessa Academia.
A Academia
é uma sociedade sem ingerências externas.
Daí,
repito,
meu jubilo,
mas que é suficientemente autocrítico para avaliá-lo como uma escolha,
além do
campo de
escol da literatura e dos
que dela,
por opção e
talento,
fazem ofício.
Fui chamado a me
apresentar à Academia
mais por uma vida participada e
quiçá atuante e
agregadora que utilizou sempre a
palavra, o
diálogo, as
idéias,
como lastro,
farol e
instrumento,
na dualidade verbo e
ação,
ação e
verbo que foi,
afinal,
como conduzi minha vida.
Junto - me agora as
minhas confreiras e
meus confrades,
compreendendo o
papel da Academia,
ou melhor,
dizendo,
os papeis da Academia de
Memória e
Ação,
cujo ritmo rima com o
olhar para o
presente,
alongando-o ao futuro,
mas preservando o
que, do
passado,
merece ficar, no continuum
dialético que mestre Machado de
Assis sintetizou: “Nada
é novo; o
que é já foi e
há de
vir a
ser.”
Essa cadeira 15
que recebo para ocupá-la é um
rio que vem de
longe alimentado por sete figuras que a
forjaram:
Luiz Gama,
como patrono, Alberto
Faria,
como fundador e,
cinco ocupantes meus antecessores:
Sud Mennucci,
Américo Moura, Ernesto
Leme, Paulo Pereira dos
Reis e
José Altino Machado.
Todos tiveram a
ligá-los o
traço de
interesse público,
seja na vida ou nos
escritos.
Quase todos ocuparam postos públicos de
caráter político e
administrativo.
Só eu sou paulistano;
meus antecessores nasceram em
outros estados: Bahia,
Luiz Gama, Rio de Janeiro, Alberto
Faria,
ou cidades do interior
paulista,
Piracicaba,
Sud Mennucci, Santa
Bárbara do
Oeste,
Américo Moura,
Bragança Paulista, Ernesto
Leme,
Piquete, Paulo Pereira dos
Reis,
Taubaté,
José Altino Machado,
mas o
caráter exclusivamente regional
não os marcou,
pois,
todos desbordaram para o
interesse nacional.
Deles
todos,
foi de
Luiz Gama,
patrono da cadeira, a
biografia que terá atingido mais abrangência, no
campo público,
pois,
confundiu sua vida com a
causa da abolição.
Viveu uma existência, nos
seus cinqüenta e
dois anos, com
páginas que animariam um romance.
Da Bahia,
onde nasceu em 1830,
veio para São Paulo
vendido como escravo e, nos fins
da adolescência,
conseguiu enquadrar-se nos
casos legais de
excepcionalidade que permitiam, em
situações raras,
ganhar a
liberdade, a
alforria,
mesmo antes
da abolição.
Com 17
anos de
idade,
aprendeu a
ler e
foi-se engajando na atividade forense voltada a
defesa de
criaturas que se
amontoavam na legião dos
esquecidos sem rosto,
voz e
vez na sociedade da época.
Foi com
seu talento jurídico –
mais intuitivo que acadêmico,
pois,
não atingiu o
grau de
bacharel –
que foi construindo,
perante os juízes paulistas,
uma espécie de
jurisprudência da necessidade que tinha a
apoiá-la sua vontade férrea e
seus excepcionais dotes
tribunícios.
Podemos imaginar o
que significou,
numa época em
que a
escravidão circulava como moeda corrente e
fincava suas raízes no
próprio DNA
da sociedade brasileira,
que, em
nome das pouquíssimas e
deficientes leis
protetoras,
desprovido de
apoios de
massa ou de
organizações mobilizadoras,
como um Quixote de
ébano,
Luiz Gama
ter conseguido a
liberdade para mais de
quinhentos cativos.
A
causa da liberdade é sempre a
mais ilustre,
mas merece ser magnificada quando obtida em
circunstâncias tão adversas.
Ao tempo
das lutas libertárias de
Luiz Gama, a
condição do
negro escravo era
contabilizada como fator econômico que alicerçava a
produção da riqueza nacional,
pelo que,
os que desejavam alterar esses termos,
punham em
risco a
própria riqueza nacional.
Mesmo sabendo hoje,
pelas investigações precursoras de
nosso confrade Jorge
Caldeira que o
Brasil não foi uma monocultura chapada,
pois entremeada de
bolsões comerciais e
industrias,
esse lado pioneiro e
diversificado não penetrara ainda no
coração humanista de
sociedade.
Por isso,
essa luta, de
Luiz Gama,
ainda que levada aos pretórios forenses entrava em
choque direto com a
ordem estabelecida, a
coisa decidida pelos tribunais, e as
acomodações escapistas de
que “afinal as
coisas sempre foram assim”.
Luiz Gama,
pedindo justiça para seus irmãos de
cor, era a
voz discordante,
solitária,
insistente como um canto
chão,
reivindicando a
alteração daquilo que todos aceitavam,
até pelo hábito,
como expressão da natureza das coisas.
Sabemos,
porém,
que são essas vozes pioneiras e
incompreendidas que, com a
força que lhes vem lá do
fundo da consciência ética,
é que fazem a
diferença.
Não se
resignam a
pitadas de
compaixão;
jogam-se inteiras à causa que se
transmuda em
vida. São
elas,
afinal,
que modificam a
história e
re-humanizam o
mundo.
A
literatura de
Luiz Gama,
talvez não tenha o
tamanho de
sua luta civilizadora,
mas,
dentro da azáfama forense que devia ser seu cotidiano,
teve vagares,
para em 1861,
escrever as
“Primeiras Trovas Burlescas de
Getulíno”. O
pseudônimo vem de
“Getulia”,
nome de
uma região do Norte
da África, e o
livro enfeixa versos
críticos, as
vezes satíricos,
sobre temas e
pessoas,
especialmente políticos do tempo de
Luiz Gama”.
“Com sabença profunda irei cantando
Altos feitos de gente luminosa
Que a trapaça mexendo portentosa
A mente assombra e pasma à natureza
Espertos eleitores de encomenda
Deputados, Ministros, Senadores
Galfarros, Diplomatas e Chuchadores
De quem reza a cartilha da esperteza”
in “Lá vai verso”
Desses versos
fustigadores,
passa a
comovente carta que escreveu a
seu filho Benedito,
capitão militar,
indicando a
leitura da Bíblia e a
famosa vida de Jesus de
Renan,
terminando por aconselhá-lo a
ser,
nas suas palavras,
“republicano com
foi o
homem Cristo”.
Luiz Gama,
figura grande de
energia e
talento,
despertou imensa admiração entre vultos importantes de
nossa literatura,
mas ressalte-se a do
grande romancista Raul Pompéia, do clássico “Ateneu”,
que confessava “votar-lhe o
grande culto das lendas heróicas”, e
que comparou a
luta de
Luiz Gama
pelos infelizes a “uma candeia
que ilumina as trevas do desespero”.
Hoje em
dia,
é muito animador constatar
que a
vida de
Luiz Gama
vem sendo,
cada vez mais conhecida,
por obras e pesquisas sérias e elucidativas,
como o recentíssimo
livro da Professora Lígia Ferreira, “Com a Palavra
Luiz Gama”, editado
pela Imprensa Oficial. Esse crescente
interesse ajuda a mostrar
que a dinâmica
da história brasileira,
os pólos ativos de
sua configuração,
não se confinaram a protagonismos hegemônicos,
mas se pluralizaram no esforço e participação de todas e diversificadas camadas
da sociedade.
– Vida menos atribulada,
mas sempre dedicada as letras,
é a do
fundador da cadeira 15, Alberto
Faria. Carioca,
nasceu em 1869, vivendo tempos em São Paulo,
na Cidade de São Carlos
onde redigiu o jornal “Arauto” e Campinas, dirigindo o “Correio de Campinas”. Em
sua atividade literária deu
sempre atenção as produções
que o engenho popular, com impulso
não livresco, reúne debaixo do conceito de folclore. Esse
interesse pela produção popular alinhou-se
ao escritor erudito, um dos fundadores
da Academia Brasileira de Letras,
que entrou
na controversa questão
das Cartas Chilenas apoiando Tomaz Antonio Gonzaga,
como o autor
das Treze Cartas, assinadas sob o
pseudônimo de Critilo, criticando o Governador colonial
da província de Minas Gerais. Hoje a questão
da autoria dessas Cartas Chilenas está pacificada com o consenso
da crítica,
que se trata
mesmo de Tomas Antonio Gonzaga,
como defendeu o
fundador da Cadeira 15, Alberto
Faria.
Os três primeiros integrantes
da cadeira 15,
meus antecessores,
Sud Mennucci,
Américo Moura e Ernesto
Leme,
tiveram em comum a formação básica em escola pública, a
tão celebre e saudosa Escola Pública,
que alicerçou a formação cultural de várias gerações nesse país.
Como
esses três predecessores, milhares de
outros tiveram essa iniciação sólida e enriquecedora
na Escola Pública o
que torna inquietante a pergunta
que não pode calar,
mas fica
ainda com a resposta aberta: porque a educação pública competente, universalista e democrática, apesar do esforço de muitos homens
públicos, se desmereceu tanto em
nosso país?
Os três predecessores atingiram posições de relevo:
Sud Mennucci no
campo de ensino
público,
Américo Moura,
na filologia, Ernesto
Leme no jornalismo, no magistério superior e
na ONU.
Sud Mennucci, nascido em 1892,
escreveu sobre nosso patrono Luiz Gama, no estilo de pré-biografia enaltecedora e
bem pesquisada com o título “O precursor do abolicionismo no Brasil” e
escreveu também incontáveis trabalhos
sobre ensino, destacando-se “A Crise Brasileira de Educação”,
onde seu alvo crítico
foi a transição sócio-econômica
pelo qual passamos,
na década de 30.
O
Brasil, alterando a economia, vinha transferindo a
vida do Campo
para Cidade, no início do processo de urbanização,
mas a educação rural, relegada, ficará no esquecimento.
A
voz crítica de
Sud Mennucci erguia-se
para o território cinza, em
que a educação tradicional do interior ficara abandonado o
que –
bem ou mal – funcionava, em proveito do “novo”
ou “moderno”
que ainda não ultrapassava o limbo
da intenção sonhadora.
Um dos
seus livros denominou, sugestivamente, de “Discursos e Conferências Ruralistas”.
Sud Mennucci foi um nostálgico,
mas alguém
que identificou o desequilíbrio recorrente de
nossa cultura,
que vez por outra, abandona o feijão concreto
pelo sonho fugaz.
O segundo predecessor,
Américo Moura, nascido em 1881,
foi professor de escola pública, deixou trabalhos
sobre a língua portuguesa,
como os “Ensaios de Filologia” e pesquisou e
escreveu sobre as
raízes e descendências de velhos troncos de famílias
paulistas.
A família “Maciel”,
por exemplo. Formou-se em Direito,
na celebre turma do Largo São Francisco
que teve Ruy Barbosa
como paraninfo no discurso conhecido
como “Oração
aos Moços”, missão,
afinal, cumprida
por Reynaldo Porchat, professor
paulista, em razão de moléstia do
grande baiano
que não pode locomover-se a São Paulo. Fazia parte
dessa turma, também, o Professor Soares de Mello,
meu professor de Direito Penal e
que foi membro
dessa Academia.
Ernesto
Leme, terceiro predecessor, nascido em 1896,
foi meu professor
na Faculdade de Direito. Guardo-o
na lembrança de
homem formal e cerimonioso com a fala escandida e rascante de
Bragança Paulista.
Foi Presidente
dessa Academia de 1971 a 1974 e
foi Embaixador Especial do
Brasil na ONU.
Lá,
na dimensão internacional,
foi uma voz forte,
ao condenar a posição privilegiada dos únicos
cinco países
que tem direito a veto
na ONU, desfazendo, às
vezes,
por mero voluntarismo unilateral, decisões de centenas de
outros países
que não gozam desse esdrúxulo privilégio.
Ainda
na ONU, Ernesto
Leme chamou, também, a atenção
para temas tão atuais
como, “refugiados”, “trabalho escra
vo”, “liberdade de informação” – e
isso em 1954 – assinalando, em suas
palavras,
que “tais preocupações estavam
na tradição, -
na verdade vou
até mais longe em afirmar
que são da essência – de
nossa cultura democrática, latina e cristã”.
Paulo Pereira dos
Reis sucedeu Ernesto
Leme,
nasceu em 1919,
foi historiador
que conduziu a
fundo suas pesquisas
que sustentaram estudos
como “Colonialismo Português e a Conjuração Mineira” e o “O Indígena do Vale
da Paraíba”.
Nesse
livro,
na verdade
dessa pesquisa, feito
livro, Paulo Pereira dos
Reis levantou pacientemente as características
das várias tribos,
melhor dizendo,
das várias nações indígenas
que viviam no Vale do Paraíba, acompanhando o nomadismo
que muitas delas praticaram e
seus usos e costumes. Nestas
suas pesquisas, localizou as memórias de
uma curiosa
figura alemã, Ulrico Shmidi, ex-soldado a serviço
da Espanha,
que, em 1552, fez
uma viagem,
por terra, de Assunção, no Paraguai, a São Vicente, descrevendo
os Tupis. Nessa descrição, o alemão informa
sobre os Tupis: “eles comem
seus inimigos e vice-versa”,
mas, “na véspera de matá-los”, concedem,
numa espécie de festa, algumas regalias,
ao condenado, “mesmo
uma mulher
para que a
tenha a
seu gosto”.
Meu antecessor imediato,
José Altino Machado, nascido em 1924,
foi um contista imaginoso e fértil.
De
vida intensa, companheiro de luminares
paulistas da advocacia criminal,
como Pedroso Horta e Castro Neves, encontrou
vagares para escrever e publicar quatro livros de contos, “A Figura Refletida”, “A Outra Gessy”, “A Primeira Vez”, “Um Rosto
na Janela”,
num total de 82 contos editados.
Sua escrita flui espontânea e, seguindo a caracterista do gênero conto, de desfecho
sempre surpreendente,
pois, contempla alternativa
não suspeitada
nas premissas.
Muitos de
seus contos
são mosaicos primorosos e mostram
bem o quanto as imposições de
vida,
num país
ainda adolescente,
como o
Brasil, subjugam o
talento literário
que tem de ceder espaço
para outras ocupações.
José Altino Machado
tinha recursos literários
para se
ter dedicado
exclusivamente ao conto. E ponto. Mas relegou-o e partiu
para o
grande cenário
público e
foi governador do Acre,
ao tempo território, Deputado Federal, Ministro de Tribunal de Contas e advogado de êxito. Mas, em tudo, se houve com brilho ostentando envolvente simpatia com cuja
figura, leve e elegante, cruzei incontáveis
vezes no Fórum Paulistano.
A obra escrita,
como toda obra de arte,
tem de despertar
algo mais que o convencional, o previsível, a
imensa planície
que se repete e
não surpreende. Há de
ter um toque de espanto. Parece-me
que José Altino Machado, nos
seus contos,
sempre nos surpreende. Vai o leitor
sendo levado a um caminho
que o conduzirá a um termo
que já adivinha
mas, súbito, o
que sucede
é o
que não foi pressentido.
Da surpresa do epílogo dos contos de
José Altino Machado disse
nosso confrade Hernani Donato
que prefaciou
seu livro “Um
rosto na janela”: o modo teatralmente surpreendente, deliciosamente malicioso com
que Altino desfecha
os dramas e ponto finaliza
suas histórias”.
No
seu conto “A Figura Refletida” o personagem julga
ter encontrado um “sósia”, com todas as reações simetricamente semelhantes, quase um clone, e
quando, intrigadíssimo, está a ponto de descobrir a identidade do outro
tão parecido e misterioso, descobre
que é ele
mesmo projetado no espelho.
É assim, com a capacidade de projetar a realidade
que, de repente, escapa
para o plano onírico e surrealista,
mas sem perder a verossimilhança,
que José Altino Machado trama
seus contos, com toques
que, às
vezes,
ao lê-lo, fez-me lembrado Julio Cortazar e
sua maestria caleidoscópica de misturar a realidade e o fantástico.
Minhas Senhoras e Meus Senhores
Vejo
hoje a Academia
Paulista de Letras com
uma Diretoria extremamente imbuída de
seus objetivos, muito
bem presidida
por nosso confrade Antonio Penteado Mendonça, um dos nomes
que São Paulo inteiro freqüenta com
suas crônicas inspiradas.
Vejo a Academia também,
como “lócus”
onde pessoas com afinidades vindas dos livros e
da literatura mas, também, de vivências convergentes, se encontram,
por escolha e deliberação comum,
para intercambiar
idéias, experiências e saberes, entendendo
que devem cultivar a língua portuguesa,
sua correção e evolução necessária
como um
rio que receba a
energia sempre renovadora de
suas margens. Cada um dos integrantes
da Academia contribui com a marca de
seu temperamento e
das circunstâncias que terá vivido,
mas,
além das diversidades
que os individualiza, haverá o consenso de
todos na defesa da língua portuguesa e
da liberdade de
expressão, dogma demogratica.
Atualmente, nos dias
que vivemos nesse século XXI de sobressaltos em
que,
praticamente, a preocupação central do
mundo se tri dimensiona,
na convivência com as desigualdades do desenvolvimento
que ainda prendem milhões de
pessoas na miséria e
na incultura; no perigo do
chamado aquecimento global
da temperatura
por força,
especialmente da queima de carbono; e
na violência e riscos crescentes
da vida urbana de todas as
cidades.
Face a
esse triangulo perverso, caberia indagar:
uma Academia de Letras centrada no
culto da língua e
da literatura, pode dar relevância
ao seu papel na sociedade? Sim,
mais do
que nunca
é a resposta categórica.
Recordo a frase de Jonh Donne
ao ensinar, a
quinhentos anos atrás,
que “nenhum
homem é uma ilha em si
mesmo mas uma peça de um continente”.
Essa idéia de alargamento
das opções e de
que o sal
da terra
não é monopólio de um setor, de
uma seita, de um partido
ou de um grupo,
mas a resultante do somatório de um “continente”
é o
que faz avançar a humanidade. Assim, tanto
é importante a renda e o emprego
como geradores do desenvolvimento
como a arte, as letras e a
literatura gerando sonhos e esperanças.
Especialmente, nesses tempos em
que,
como tem constatado
nosso confrade Ignácio Loyola Brandão viajando –
ou peregrinando –
por todo o
Brasil,
há fervente desabrochar de
interesse pelas letras em
todos os setores, com congressos, encontros, simpósios e flip, flippes e bienais. Suponhamos
que,
por milagre, se resolvessem todas as preocupações do trinômio
que tracei – desigualdade, aquecimento e violência. Com tudo solucionado, restaria
sempre a civilização. Restaria o pensamento, a cultura e a preocupação do
que fazer delas. E o pensamento, a
literatura, o amor às
idéias é algo que deve
ser imorredouro
na criatura humana,
pois,
esses,
afinal,
são os instrumentos permanentes
para procurar as chaves simbólicas de
nossa existência.
Jamais
uma equação econômica
ou matemática,
ou a ganância
ou o consumo serão suficientes
para explicar a estrutura
da célula humana,
quando sabemos
que essa célula, ama, odeia, renuncia, ambiciona, busca a transcendência no desempenho do
que lhe
é específico: a dignidade humana.
O conjunto delas
sempre almejará
uma libertação
que a livre de dúvidas
na procura de
algo que traga conforto,
até porque, nascemos com
uma tendência inesgotável de curiosidade.
E a arte, as letras, a
literatura, tanto
na poesia
ou na prosa, e no
papel impresso
ou no “bite” virtual,
é o
campo por onde essa curiosidade deve transitar.
É dos últimos dias, a entrevista
ao jornal “O Globo”, em
que Lygia Fagundes Telles, estrela guia
das letras brasileiras, evocando Rimbaud, disse
que “é preciso
ser vidente”. E o
que é ser vidente? Responde Lygia: “É abrir a cortina do tempo e ver
além dele. Aquele
que vive plantado em
seu espaço e em
seu tempo
não consegue ver além”.
Minhas senhoras,
meus senhores
E
é esta a tarefa, e
esta a
nossa tarefa: ver
além. Perceber o
que,
na dimensão
pessoal e
da vida em
sociedade, devemos fazer
para que cada um possa, no
seu espaço, transmitir “a boa vontade”
da lição bíblica
para que, no
nosso país, possamos reforçar expandir, e consolidar a Democracia,
que passo a passo, estamos
construindo, isto
é, a solidariedade
que, partindo do
Brasil, se faça rede planetária, no entendimento
que cada pessoa
não está no
mundo só
para si; está também
para os outros. E
que a felicidade dependerá de
como equilibrar a dimensão
pessoal com a social. E a
melhor e
mais eficiente balança
para conquistar
esse equilíbrio
são os Direitos Humanos.
Muito obrigado.