Saudação de Miguel Reale
Há muito tempo se
discute no
Brasil se as
Academias de
Letras devem ou não acolher em
seu seio os distinguidos cultores das ciências naturais e
humanas,
bem como os que se
converteram em
figuras representativas do
País.
Já expuseram razões opostas Machado de
Assis e
Joaquim Nabuco quando da criação da Academia
Brasileira de
Letras,
sustentando o
autor das Memórias Póstumas de
Braz Cubas que elas deveriam ser reservadas aos autores das chamadas letras floridas,
admitidos apenas os historiadores pelo que há de
pessoal e
artístico nas obras de
História.
Joaquim Nabuco,
ao contrário,
entendia que as
Academias de
Letras,
como instituições representativas de um
povo,
deveriam acolher,
embora excepcionalmente,
também as
figuras mais expressivas da cultura em
geral,
desde que tenham sabido contribuir, com
seus escritos,
para o
aperfeiçoamento dos
valores individuais e
coletivos.
Penso que a
razão assiste ao mestre pernambucano,
pois a
representatividade de
uma nação não cabe apenas a
seus poetas e
prosadores,
mas também aos que,
tratando de
problemas científicos,
filosóficos,
políticos ou jurídicos,
tenham sabido fazê-lo com
zelo e amor
pelas palavras,
ou seja, pelos
valores da língua.
De
mais a
mais,
como salientou Euclides
da Cunha no famoso prefácio
aos Poemas e Canções de Vicente de Carvalho, referindo-se a Engenharia,
não há nada de golpeantemente decisivo nessa profissão de números e diagramas, assim
como, acrescento eu, nos domínios dos demais saberes positivos.
É essa, aliás, a conclusão a
que chega a Epistemologia contemporânea, a qual tem demonstrado quanto de problemático e de conjetural
há no estudo
das questões científicas e até mesmo no campo
da Lógica e
da Matemática.
Temos marchado, a
bem ver, no sentido
da universalidade do conhecimento,
não sendo privilégio dos homens de
letras valer-se
da imaginação criadora, prevalecendo cada vez
mais a interdisciplinaridade no plano
das perquirições sobre a natureza e o espírito.
Há até mesmo quem vá
mais longe, falando
da recíproca influência exercida por todas as modalidades de
valores no universo
da cultura, fixando o sentido dominante de cada época histórica.
Afirma-se, em suma,
que no cenário cultural, as
ciências e as artes podem agir umas sobre as outras, sendo
mais freqüentes essas ações recíprocas no reino
das artes. Nessa ordem de idéias, tem-se dito
que a pintura de Césanne teria sido influenciada pela poesia de Rimbaud, assim
como a de Picasso
pelas inspirações de. Baudelaire. Seriam, assim, até certo ponto convencionais as divisões feitas entre as atividades
humanas, o
que parece exagero. O certo é
que, no tocante à linguagem e
aos modelos espirituais,
não se pode pretender a existência de domínios absolutamente separados e insulados.
A globalidade,
que se costuma erroneamente reduzir
ao mundo econômico-financeiro, é
uma das linhas norteadoras, hoje em dia,
da atividade cultural, o
que redunda em
uma intercambialidade no plano
da linguagem, o poeta recorrendo
não raro às descobertas dos físicos, e estes se inspirando em mitos poéticos.
A interdisciplinaridade parece
ser um caminho aberto a todas as formas de invenção cultural, aproximando-se cada vez
mais os seres humanos, qualquer
que seja o objeto de suas pesquisas e indagações, e ninguém sabe isso melhor do
que um cultor de Sociologia Econômica, atividade primordial de José Pastore.
Isto seria bastante
para legitimar a presença de um notável sociólogo e economista na Academia Paulista de
Letras,
mas há algo a acrescentar,
pois o
que mais me agrada e impressiona em
seus escritos é o sentido humanista
que sempre exorna o
que escreve,
como professor titular
da Faculdade de Economia e Administração
da Universidade de São Paulo, lecionando sociologia aplicada às atividades econômicas.
Ora,
não há ciência tão marcada pela incerteza
como a Economia, cujos
cultores são obrigados freqüentemente a rever e retificar suas previsões, reconhecendo a interferência do acaso
ou do imprevisível em
seus cálculos baseados em dados estatísticos.
Nos revolucionários tempos
que estamos vivendo,
quando se verificam alterações inopinadas e violentas no mundo financeiro,
que lembram
os imprevistos movimentos sísmicos, é
bem difícil proclamar a cientificidade tranqüila e positiva
da Economia,
que antigamente prudentemente se denominava Economia Política, tão atuante e perturbadora é nela a interferência do poder do Estado.
De
mais a
mais,
como esquecer
que Adam Smith, o fundador
da Economia moderna, antes de escrever, em 1776, Indagação sobre a Natureza e Causas
da Riqueza
das Nações, escrevera, em 1757, Teoria dos Sentimentos Morais,
que o filósofo italiano Luigi Bagolini denomina a Moral
da Simpatia,
tratando, em ambas as
obras, com reconhecida genialidade, do problema do valor, palavra mágica
que, com renovados sentidos, iria alterar o ritmo
da Filosofia e
da Política,
desde Marx
aos posteriores axiologistas?
Bastaria a Economia
ser, substancialmente,
uma "ciência do valor",
para verificar-se quanto nela existe de qualitativo e de problemático e, por conseguinte, de pouco redutível às verdades definitivamente assentes e indiscutíveis.
Por outro lado, a Sociologia,
como ciência
da sociedade, do
ser humano enquanto entidade intersubjetiva
que condiciona a atuação dos indivíduos na vida de relação, é a ciência
que mais se aproxima dos domínios
das letras e
das artes, as quais
não se desenvolvem
como meras abstrações,
mas,
ao contrário,
como expressão
da existência social concreta emanada
da consciência individual e
da consciência coletiva.
Vejo, assim, um liame provocador entre a Sociologia e o
que há de imagético
ou variável no mundo
das Letras, havendo
muito de
pessoal nas teorias sociológicas contemporâneas, sobretudo
quando quem as desenvolve tem básica formação filosófica,
como é o caso de nosso novo confrade.
Ao sentar-se,
pois, José Pastore
ao lado de
poetas, romancistas e contistas -
para não falar de filósofos,
historiadores e juristas - estará ele compartilhando
das mesmas hesitações e dúvidas
que nos acomumam, máxime em se
tratando de um
mestre de Sociologia,
que é
uma ciência
que, a meu ver, se situa entre o conhecimento positivo
das ciências naturais e o
da Filosofia tão impregnado de conjeturas.
É esse magnífico patrimônio cultural
que enriquece as
obras de nosso novo colega
que apresenta um currículo universitário de marcantes amplitude e profundidade, compreensível por
ser de quem ostenta o expressivo título de doutor honoris causa
da Universidade de Wisconsin nos Estados Unidos
da América, e
que no
Brasil, veio construindo
seu cabedal de conhecimento invejável
ao longo de sua carreira no magistério
da USP, na qualidade de professor titular.
Não podem
também ser esquecida suas fecundas participações na vida pública,
como Chefe
da Assessoria Técnica do Ministério do Trabalho,
ou representante do
Brasil na OIT - Organização Internacional do Trabalho, em Genebra.
Autor de centenas de artigos em jornais e revistas, seria impossível, nesta breve saudação, enumerar todos
os seus livros, bastando lembrar alguns deles,
os mais recentes, A Evolução do Trabalho Humano, de 2001, sendo editado no mesmo ano Trabalho, Família e Costumes, títulos
que falam por si, mostrando
os amplos horizontes em
que sua atividade cultural se desenvolve.
Não posso, todavia, deixar de recordar outra obra elaborada com rigorosa técnica científica e com alta sensibilidade social. Refiro-me a Oportunidades de Trabalho
para os Portadores de Deficiência,
que é de 2000. Graças a essa obra, ficamos sabendo
que o
Brasil possui cerca de 16 milhões de pessoas deficientes, com nove milhões em idade de trabalhar, dos quais
apenas um milhão trabalha. Pastore conseguiu demonstrar
que tão somente menos de 200 mil possuem carteira assinada e dispõem
da proteção
das leis trabalhistas e previdenciárias. Basta esse impressionante cenário
para termos ciência de quanto devemos às pesquisas sócio-econômicas de José Pastore,
que, ademais, apresenta
uma série de sugestões e medidas a serem tomadas
para superar esse degradante quadro de exclusão social.
O homenageado desta tarde
não se limita
ao estudo do
Brasil, estendendo
seu poder de indagação à Ásia e notadamente
ao Japão,
como revelam dois livros de 1993, a Flexibilização do Trabalho na Ásia e Relações do Trabalho no Japão, tão importantes quanto
seu estudo de 1994 sobre Uma Revolução pela via democrática: o Caso de Nova Zelândia.
Ademais, em 2002, o Instituto Japonês do Trabalho, de Tókio, editou
seu estudo "Labor Standards and International Trade: The Case of Child Labor in Brazil".
É com essa preciosa bagagem cultural
que o novo acadêmico vem enriquecer a nossa Instituição,
mas seria imperdoável se olvidasse
que ele é
também jornalista na plenitude de suas contribuições.
A particularidade do jornalista consiste em jamais querer guardar
para si aquilo
que sabe, sentindo constante necessidade de dá-lo a conhecer
ao público em
geral.
O jornalismo é, inegavelmente,
uma atividade literária, implicando a sabedoria
da notícia ofertada periodicamente, o
que exige técnica especial de comunicabilidade.
Jornalismo quer dizer comunicação e informação literária periódica
para a acessível compreensão do maior número de leitores, o
que exige conhecimento
da língua tão
bem como o dos demais companheiros de
uma Academia de
Letras.
Não creio seja necessário acrescentar algo
para legitimar o ingresso entre nós de José Pastore, notória
que é a sua competência
como sociólogo
da economia,
como analista dos grandes
problemas político-sociais do
País, e
como jornalista.
É à luz desses amplos e diversificados atributos
que tenho o prazer de saudá-lo, e de dizer-lhe com alegria: “seja bem-vindo!”