Discurso de Posse em 18 de março de 2004
Excelentíssimo Senhor Professor Erwin Theodor Rosenthal,
digníssimo Presidente da Academia
Paulista de
Letras.
Ilustres acadêmicos,
autoridades presentes,
minha família,
caros amigos.
Ao longo de
minha vida cometi vários atrevimentos.
Casei-me com a
amada Wilma,
quando minhas finanças mal
davam para uma vida de
solteiro.
Parti logo
para a
paternidade e,
depois 9
meses,
nasceram nossos queridos gêmeos, Silvia Cristina e
José Eduardo, no
momento em
que, a
duras penas, as
economias sustentavam o
casal.
Wilma e
eu repetimos o
feito,
ganhando a
adorável Ana Claudia,
quando,
durante o
doutorado nos
Estados Unidos,
recebíamos uma diminuta bolsa de
estudos para manter 5
pessoas.
Mas,
confesso,
senhor Presidente,
nenhuma das ousadias superou a
audácia de me
inscrever na Academia
Paulista de
Letras.
Afinal,
é patente a
minha pequenez diante da rica plêiade de
intelectuais que compõem este nobre sodalício,
por onde passaram tantos gênios da cultura brasileira.
Senhor Presidente,
prezados acadêmicos:
Como
profissional da sociologia do
trabalho,
passei 50
anos coletando dados,
trabalhando com
números e
testando modelos estatísticos.
Minhas horas de
literatura foram sempre roubadas das horas de
ciência.
Mas constituíram,
sem dúvida, as
mais proveitosas por terem introduzido,
na pesquisa social, a
indispensável dimensão humana.
Por saber
existir nesta Casa um
ambiente de
alta densidade intelectual e de
sincera amizade,
estou certo poder trabalhar aqui minhas fraquezas no
campo das letras e,
quem sabe,
contribuir no
campo das ciências sociais.
O
que tenho a
oferecer é o
compromisso de
depositar na Academia
Paulista de
Letras tudo o
que aprendi,
aliás,
meu único patrimônio,
formado pelo estímulo de
meu pai Clemente -
literato e professor de
português - e de
minha mãe Adelina,
supervisora de
minha educação.
Mas terei de
pedir paciência a
Vossas Excelências.
Farei muitas perguntas impertinentes para obter respostas pertinentes.
Afinal,
quem não pergunta não aprende.
Paulo
Eiró - O
Patrono
Paulo Francisco de
Salles Eiró - o
patrono da cadeira 29
que ora assumo foi também um
homem inquieto,
questionador,
democrático e,
ao mesmo tempo, um
raro ser humano,
inspirado poeta e
belo dramaturgo -
tão bem biografado por Affonso Schmidt (2).
O
nosso patrono nasceu em 1836 em Santo
Amaro,
onde,
por justa homenagem,
foi erguido o
Teatro Paulo
Eiró.
Ao estudar sua vida,
adorei a
mescla de um amor
romântico,
não correspondido, com um
espírito combativo,
que lutou pelas causas sociais, em especial,
pela libertação dos
escravos.
Para a
sua adorada Musa,
chamada Ambrosina (3),
mas,
por ele "
batizada" de
Nectária, o
poeta não pôde entregar o
seu coração,
mas deixou,
para a
eternidade,
os mais carinhosos versos.
Leio alguns deles.
Nectária,
és meu sonho de
todo o
instante,
Único aroma de
minha mocidade,
....
Nectária,
como eu te adoro!
Como me
acalmas as
dores!
Não troco por teus amores
Quantos
amores houver!
És flor,
mas não flor
da terra,
Um anjo,
que não mulher.
É inacreditável
que diante de tanta beleza, tenha ela escolhido outro marido... Paulo
Eiró foi um eterno prisioneiro
da ausência de
Nectária.
Ah! Essas mulheres... O
seu amor
é sempre uma chama,
mas nunca se
sabe se a chama vai aquecer o
coração do
homem ou queimar-lhe a casa...
Na luta contra a escravidão, chamou-me a atenção, a visão prospectiva de Paulo
Eiró, estampada no prefácio de
sua peça teatral, "Sangue Limpo",
onde diz:
“Penso
que o presente deve
ser preparador do
futuro... É dever do
poeta, tanto quanto do
estadista..., combater
os preconceitos iníquos
que se opõem à emancipação completa de todos
os indivíduos... Essa grande revolução
não há
de
ser completada pelos
mais mancebos de hoje;
restar-nos-á, porém, a glória de haver-lhe aplainado o
caminho”.(4)
Paulo
Eiró morreu em 1871 em conseqüência de grave doença mental. É difícil saber o
que mais pesou - se a tristeza de ver
Nectária em braços alheios ou o sofrimento de ver a
libertação dos
escravos passar longe do Brasil. Faleceu aos 35
anos -
na flor
da idade -
como ocorreu com
tantos gênios de
sua época.
Hoje,
os brasileiros vivem, em média, 71
anos. Que diferença!
Mas, infelizmente, muitos jovens continuam morrendo cedo, devido à brutalidade
da vida moderna. Se outrora eram a tuberculose, o tifo, a febre amarela e a doença mental(5), hoje são o crime, a droga e
os acidentes de trânsito
que destroem a nossa juventude.
Valdomiro Silveira
(1909-1941) (6)
O Brasil
sempre foi uma terra de contrastes, marcada
por surtos de progresso,
ao lado de quadras de estagnação, retrocesso e injustiça.
Vejam a
vida de Valdomiro Silveira, primeiro ocupante desta
cadeira em 1909. Começou
sua carreira
como promotor público em Santa Cruz do Rio Pardo.
Por ter contrariado a vontade de
uma fazendeira
rica que mandara matar a amante de
seu marido e a filha dos dois, o jovem promotor teve de sair
da cidade, tamanha
foi a pressão política exercida
pela poderosa senhora.
Mas foi essa perseguição
que aguçou em Valdomiro Silveira
os ideais de justiça, levando-o a
uma luta ferrenha
pela liberdade. Transferido
para São Paulo, aproximou-se de Martins Fontes, Euclydes
da Cunha, Amadeu Amaral, Julio Mesquita e Cornélio Pires e, com eles,
não só cultivou as belas
letras como avançou nas suas convicções democráticas.
Em Santos,
onde viveu
por muito tempo,
foi líder
da Revolução de 1932, sonhando e lutando
por um Brasil governado
por princípios lastreados
na vontade do povo, e
não no arbítrio de um ditador.
Eleito Deputado Federal à Assembléia Nacional Constituinte,
não exerceu o mandato devido à convocação de Armando
Salles de Oliveira
para as pastas
da Educação e,
mais tarde,
da Justiça.
Foi
também Deputado Estadual, vice-presidente e presidente
da Assembléia Constituinte de São Paulo.
Em meados de 1937, Armando
Salles de Oliveira lançou-se candidato à Presidência
da República, recebendo o apoio de Valdomiro Silveira, Mario de Andrade, Guilherme de Almeida, Monteiro Lobato, Plínio Barreto, Cassiano Ricardo e outros
intelectuais de renome
que fundaram o jornal "O Anhanguera" e o "Grupo Cultural Bandeira".
Entretanto, o apoio durou pouco, pois, logo em seguida, Getúlio Vargas instalou o Estado Novo. O jornal
foi fechado,
Salles de Oliveira
foi preso e exilado, e Valdomiro perdeu o mandato.
Mas,
não esmoreceu. Continuou
mais democrata do
que nunca.
Aliás, São Paulo
sempre contou com gente democrática - gente
que até hoje, cultiva a liberdade e faz o
que precisa
ser feito. Esse
espírito de independência surgiu de necessidades peculiares dos paulistas. Honório de Sylos,
que ocupou a
cadeira 6 desta Academia, explica
que a cidade de São Paulo sofreu um prolongado isolamento geográfico, espremida
pela parede
da Serra
da Mantiqueira e
pelo abismo
da Serra do Mar. Era difícil chegar
ao litoral e empreender
uma viagem a Portugal,
por exemplo,
que, além de insegura, incerta e onerosa, levava três
meses (7).
Neste 2004,
quando comemoramos
os 450
anos da cidade, convém lembrar
que a população de São Paulo ficou minúscula
por mais de 300
anos. Começou com apenas 100 almas. E,
durante,
os primeiros três séculos, cresceu só 97
pessoas por ano. É o
que São Paulo cresce atualmente a cada duas
horas (8).
Compartilho
da tese
que atribui
ao isolamento prolongado, a psicologia social do paulista, reconhecidamente autônomo, deliberado e voltado
para a construção do futuro.
Não é à toa
que São Paulo
foi o berço
da independência do Brasil.
Não foi aleatória a marcha
das Entradas e Bandeiras a partir de São Paulo, garantindo a imensidão do território nacional.
Não foi ocasional a ocorrência, neste Estado,
da Revolução
pela Liberdade, em 1932. Dali
para frente
foi um crescimento vertiginoso. Hoje a Capital tem 11 milhões de habitantes e o Estado quase 40 milhões (9).
Fiz essa digressão
para mostrar
que, faça chuva ou faça sol,
os paulistas querem
trabalhar para, com isso, preservar
sua liberdade. Daí a emergência de
tantos guerreiros
da democracia neste pedaço do Brasil.
Voltando a Valdomiro Silveira,
na literatura,
sua grande marca
foi a graça com
que retratou
os costumes e o modo de
ser do caboclo paulista. Passou a
vida anotando as expressões,
os jeitos e trejeitos dos réus e testemunhas
que compareciam aos tribunais.
Os livros de Valdomiro Silveira figuram em um alto pedestal no
campo da literatura regional, destacando-se, dentre outros, "Os Caboclos" (1920),
que reúne histórias pitorescas narradas no linguajar interiorano,
como é o caso de um caboclo, tido
como valentão,
que entrou no bar de Anna Triste, "fez um ronquinho, limpou a goela, bateu o rabo de tatu no balcão e gritou:
- Bom dia, nh 'Anna!
- Bom dia.
- Me dê já meio martelo de pinga: sinão, sinão...
Anna Triste tirou
da gaveta urna garrucha Laporte com
os dois gatilhos arreganhados
na boca do estômago do valentão, e perguntou:
- Sinão o quê,
seu poaia? (antipático)
- Sinão
não bebo, uai! (10)
Luciano Gualberto
(1941-1959)
Valdomiro Silveira
foi sucedido
por Luciano Gualberto, um extraordinárip médico e administrador público
que, dentre
os vários cargos
que ocupou, destaco o de Reitor
da Universidade de São Paulo.
Mas Gualberto fora colaborador de Arnaldo Vieira de Carvalho e Alfonso Bovero
na criação
da Faculdade de Medicina
da mesma Universidade. Especializou-se em urologia, tendo escrito e traduzido inúmeras obras nesse
campo.
Além de
sua competência científica, Luciano Gualberto
foi um agradável professor,
que entremeava suas aulas com estórias de muito calor
humano. De fato, o bom professor
não é aquele
que só implanta fatos
na cabeça dos alunos,
mas o
que provoca neles a curiosidade, a imaginação e a criatividade.
A veia social do grande mestre despertou cedo. Sua tese de doutoramento, aprovada em 1909,
foi sobre "A Proteção do Operário em Casos de Acidentes do Trabalho". Inspirado nessa obra, o governo editou um Decreto-Lei (DL 3.724)
que tratava
da proteção aos acidentados.
Mas isso
foi em 1919 - dez
anos depois. Como se vê, a demora em decidir
não é invenção dos governos de hoje.
Os acidentes
da época eram devastadores devido à rudeza do ferramental
da agricultura,
ao fogo errático
das forjarias, aos perigosos andaimes
da construção civil e
tantos outros fatores de risco. A devastação permaneceu
por vários anos.
Não muito distante,
ao longo da década de 90, 39 mil brasileiros
que saíram de casa
para trabalhar,
não voltaram. Morreram
trabalhando: 39 mil em dez
anos!
Esses são
os casos notificados. Até hoje, a grande maioria dos acidentes de
trabalho não é notificada. Os estragos são brutais
para os trabalhadores, as famílias e a economia do país. Pesquisa recente mostrou
que os acidentes do
trabalho custam
ao Brasil 25 bilhões de reais
por ano! São 100 bilhões de reais a cada quatro
anos (11). Uma fábula de recursos! Sem contar a dor, o sofrimento e as vidas,
que, evidentemente,
não têm preço.
Nos últimos tempos,
os números melhoraram. Eficiência?
Não, infelizmente. É irônico dizer
que a redução do número de acidentes resultou, em grande parte, de
uma lei
que desestimulou a notificação
por parte
das empresas (Lei 6.367 de 1976). Um absurdo.
No Brasil
é assim. Quando a febre está muito
alta, troca-se o termômetro... Na inflação, dá-se o
mesmo. Quando o preço do chuchu dispara, tira-se o chuchu
da lista do custo de
vida. E a inflação baixa. É assim
que os tecnocratas demonstram a
sua genial criatividade...
Além de médico e professor, Luciano Gualberto
foi um
homem de
vida pública e de ação enérgica,
como era o
seu jeito de
ser -
sempre falante, direto e contundente.
Foi vereador em três legislaturas, deputado estadual, vice-prefeito, prefeito interino e secretário
da saúde e
da educação.
Saúde e
educação foram suas grandes paixões. Perdão.
Não posso omitir a
sua vocação de
poeta -
poeta das horas vagas,
como se auto-definia. Ele costumava brincar, dizendo
que suas poesias saíam
sempre de "pé quebrado" porque,
como urologista,
não dominava as ferramentas dos ortopedistas...
Pura modéstia. As criações literárias de Luciano Gualberto
foram simples,
mas retrataram
seu diuturno convívio com o sofrimento
humano nas clínicas, nos centros de saúde e nos hospitais,
como se nota nos seguintes versos:
Eu conheço o sabor
da lágrima e do riso,
Tenho rido e chorado e, assim, dessa maneira,
Ora tendo o caminho eriçado,
ora liso,
Senti as sensações de
uma existência inteira (12).
Ataliba Nogueira
(1959-1983)
Depois de Luciano Gualberto, a
cadeira 29
foi ocupada
pelo grande jurista e
homem de fé -
José Carlos de Ataliba Nogueira.
Ataliba Nogueira iniciou
sua carreira
como professor, lecionando no Ginásio do Estado
da Capital e,
mais tarde,
na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco,
onde se formou e se tomou catedrático de Teoria Geral do Estado.
Ataliba negava o materialismo dialético
que pregava a hegemonia do Estado.
Ao mesmo tempo, repudiava o anarquismo
que pretendia chegar à liberdade
sem normas. Reconhecia o papel regulador do Estado,
mas rejeitava o Estado onipotente.
A
vida de Ataliba Nogueira
foi marcada
por uma rica mescla de jurista, jornalista e ensaísta, destacando-se
sua obra de referência sobre Antonio Vicente Mendes Maciel- o Antonio Conselheiro publicada em 1974 (13).
Baseando-se em manuscritos inexplorados
por Euclydes
da Cunha
quando escreveu "Os Sertões", Ataliba Nogueira revelou um Antonio Conselheiro diferente,
que nada tinha de bronco, louco e ignorante, tratando-se, sim, de um católico fervoroso, caridoso e defensor intransigente
da religião
como base
da formação do caráter do
homem e do Estado.
Não foi um monarquista gratuito,
mas sim um lutador contra
uma república, recém-proclamada (1889),
que,
ao separar a Igreja do Estado, passou a oprimir
os fiéis e a desvalorizar
os princípios do catolicismo.
Ataliba
foi também um
homem de ações práticas
na Assembléia Nacional Constituinte de 1945 e nos
vários cargos públicos
que ocupou no Estado de São Paulo e
também na ONU - Organização
das Nações Unidas.
Da
sua volumosa obra no
campo do direito,
é difícil extrair o
mais importante. Gosto muito do
seu livro clássico "O Estado
é um meio e
não um Fim", do qual leio o seguinte trecho:
“O indivíduo
não foi feito para o Estado,
mas sim
o Estado
para o indivíduo,
para seu bem estar
moral e material,
para a
sua felicidade.
Não é o
Estado
que cria o direito... O direito
não nasce
com o Estado,
mas com o
homem... O Estado
não
é o fim do
homem;
sua missão
é ajudar o
homem
a conseguir
seu fim” (14).
Ibiapaba Martins
(1983-1985)
Depois de Ataliba Nogueira, cultivador
da doutrina cristã, ocupou a
cadeira 29 o jornalista e advogado Ibiapaba Martins, defensor do materialismo dialético. É o ecletismo
da Academia
Paulista de
Letras. Idéias divergentes,
sem dúvida,
mas todas em busca
da justiça social.
Ibiapaba Martins chegou à Academia com romances
bem escritos, permeados
por insinuantes histórias de amor e ricas descrições dos movimentos
sociais das décadas de 40 e 50, espalhados em seus livros
"Falam
os Muros
da Cidade" (1950) (15), "Sangue
na Pedra" (1955) (16), e "A Flor e o Estandarte"(1975) (17), dentre outros.
Ibiapaba
foi um crítico ferino dos políticos aproveitadores. No
seu livro "Carta
para a Mãe do Tempo" (1980), encontrei
uma conversa pitoresca entre um deputado-empresário, Eduardo Militão, e dois jovens. Militão era um
homem rico
que, com um simpático cinismo discorria sobre
tudo, inclusive sobre verdades. Naquela conversa, tentava convencer
os dois jovens - um jornalista, outro publicitário - a montarem um escritório
para assessorar políticos no Congresso Nacional, usando
os seguintes argumentos:
“Na Câmara [dos Deputados] temos colegas semi-
analfabetos,
que necessitam de assessores.
Mesmo
os alfabetizados mal têm tempo de
elaborar seus discursos e anteprojetos.
Dependem
da [ajuda] de jovens
como vocês”.
“A propaganda [tem] um importantíssimo papel
no progresso do País... Vocês são mestres
na arte
de levar o povo a pensar desta ou daquela
maneira... e especialistas
na utilização de
estrelinhas
para destruir reputações” (18).
[Venham
trabalhar para os deputados].
Há alguma atualidade nisso? Deixo a resposta
por conta do
nobre público.
Ibiapaba Martins
foi criado no meio de revoluções - a de 1924, de Isidoro Dias Lopes, a de 1930, de Getúlio Vargas e a de 1932, a
que buscou restaurar o respeito
humano. Aprendeu a acreditar no Estado verdadeiramente
democrático e contestou duramente
os governantes arbitrários.
É triste verificar
como essa mesma luta marcou a
vida de
tantos acadêmicos desta Casa. Digo triste porque nos últimos 74
anos de história republicana, tivemos cerca de 11 mil dias governados
pelo voto direto e
mais de 15 mil dias governados
pelo voto indireto e
pela força do arbítrio.
Nossa democracia ainda
é tênue. Várias vezes,
os Vice-Presidentes governaram
mais do
que os Presidentes. Marco Maciel,
por exemplo, esteve à frente do governo
durante 339 dias, enquanto Jânio Quadros presidiu a Nação
durante 206 dias.
Mas tudo indica
que esse recorde será batido
pelo atual vice-presidente,
José Alencar... Ah, essas viagens... O
que será do
nosso Presidente com a nova e bela aeronave... ? (19)
Ibiapaba Martins, com razão, lamentava
que a democracia estivesse demorando
para chegar
ao Brasil, em grande parte, devido
ao atraso educacional. Permitam-me citar um dado. Em 1850,
os Estados Unidos tinham 90% de
sua população alfabetizada enquanto
que o Brasil tinha 90% de analfabetos. Isso explica, em larga medida, a diferença de desenvolvimento entre as duas nações (20). A
educação é a mola do progresso econômico e o alimento
da democracia social. As nações
que desprezam a
educação, perdem o passado e anulam o futuro.
Francisco Brasileiro
(1985-1989)
Francisco Brasileiro
foi o quinto ocupante
da cadeira 29. Também gostava do interior,
das artes regionais, do feitiço
da mata. Foi um sertanista
por excelência e um bom romancista.
De suas caminhadas
pelo sertão, enviava radiogramas, publicados
pelo jornal "O Estado de S. Paulo",
que,
mais tarde, integraram as obras "Na Serra do Roncador" (1938) (21), "Monografia Folclórica sobre o Rio
das Garças" (1948) (22) e "Os Bruxos" (1983) (23), dentre outras.
Nas suas aventuras, mata adentro, o "Chicão"
como era tratado pelos amigos, enfrentou a malária, o tifo e a febre amarela. É triste verificar
que o Brasil de hoje ainda se debate com enfermidades preveníveis. Em pleno século XXI, a malária acomete meio milhão de brasileiros todos
os anos; a doença de Chagas 5 milhões; e a esquistossomose, 6 milhões.
Mas,
para enfrentar as agruras
das doenças e o mistério do sertão, o Chicão, usava a energia do
seu reconhecido
espírito positivo
para ver o mundo com invejável otimismo
como se pode observar nestes versos:
Vou andar de déu em déu
na terra
como no céu
em cima do
meu cavalo,
debaixo do
meu chapéu.
Quem monta as coisas sou
eu.
Da
vida não digo adeus
E, pra deixar de
ser homem,
Já passo logo a
ser Deus (24).
Como diz Mário Donato, Francisco Brasileiro viveu
como se nunca fosse morrer (25). E,
depois que entrou
para esta Casa, então, confiou cegamente
na imortalidade dos
acadêmicos...
Domingos Carvalho
da Silva
(1989-2003)
Domingos Carvalho
da Silva, a
quem tenho a honra de suceder,
nasceu em Gaia (Portugal) em 1915, naturalizou-se brasileiro em 1937, e faleceu em São Paulo no ano passado.
Menino ainda,
foi sempre o escolhido
para recitar poemas de Castro Alves, Raimundo Correa e Olavo Bilac nas festas do Grupo Escolar
da Consolação, (Capital de São Paulo) e em outras escolas, inclusive
na Faculdade de Direito
da Universidade de São Paulo,
onde se formou.
Homem de vasta
cultura,
é reconhecido
como um grande
poeta pelos próprios poetas. Sua obra "Múltipla Escolha" reúne
uma extraordinária seleção de poemas.
Dado o enorme amor
que dedicou à poesia,
tenho a impressão
que ele ficará feliz
ao saber
que,
nesta solenidade, o
seu humilde sucessor leu
para o público
alguns trechos de "O Poeta" e do "Canto de Louvor
da Poesia", publicados
na Revista desta Academia, respectivamente, em 1992 e 2003:
Este grave oficio de
poeta
Que exerço enquanto o tempo vai
Dando
mais terra à
minha sombra,
Não o
aprendi com
meu pai.
Este
meu álibi de cantar
Para ausentar-me do
que sou,
De
minha mãe não o herdou
O filho rebelde e
sem lar.
Este ritmo
que celebrei
No contra ponto
da viola,
Jamais
aprendi na escola
E a mim
mesmo ensinei.
Sou inventor do
que sou
E, embora neto de avós,
Tenho de próprio a
minha voz,
bússola do Norte aonde vou. (26)
..................
Quero a poesia em essência
Abrindo as asas incólumes.
Boêmia, perdida ou tísica,
Viva ou morta, amo a poesia (27).
Senhor Presidente,
caros acadêmicos:
É hora de terminar. Com evidente limitação, tentei reverenciar
os meus brilhantes antecessores. O estudo de suas obras bastou-me
para elevar o senso de responsabilidade com
que assumo a
cadeira 29. É
meu desejo levar adiante o magnífico
trabalho de todos eles. A nossa
cultura precisa penetrar fundo
na juventude de hoje, assim
como a nossa democracia precisa avançar muito
para se tornar
mais justa.
Todos sabem
que o Brasil
é um dos países
mais desiguais do mundo. As
causas são profundas e se ligam a problemas
que vêm de longe, dentre eles, a
educação precária.
Temos de melhorar a qualidade de
nosso ensino
para poder iluminar as novas gerações. A Idade Média
foi considerada a Era
da Escuridão
não por falta de luz,
mas porque
os homens recusaram vê-la.
Senhor Presidente, ilustres
acadêmicos:
Espero
que o
meu atrevimento seja compreendido
como um gesto de
quem deseja aprender. Aliás,
eu estava ainda aprendendo
quando dei a última aula
na Universidade de São Paulo.
Não me conformei com a aposentadoria. Voltei a lecionar e a ouvir
os alunos. Meus colegas apoiaram. Aliás, eles
sempre disseram
que o convívio intenso com
os economistas
da Faculdade de Economia e Administração, me fizera esquecer boa parte
da sociologia sem dar tempo
para aprender toda a economia.
Eles têm razão. O
ser humano que pára de aprender vira obsoleto, tenha
ele 20, 30, 40 ou 50
anos. Quero seguir o exemplo deste grande brasileiro, Miguel Reale,
que, com 93
anos,
não desiste de aprender e,
por isso,
não pára de ensinar. É esta sede de aprender e
este impulso de ensinar
que me levaram a escolher Vossa Excelência, caro Professor,
para me receber
nesta Academia. Este
é,
sem dúvida, um dos momentos
mais felizes de
minha vida.
Finalizo com um profundo agradecimento à acolhida oferecida
pelo Senhor Presidente e pelos nobres companheiros deste templo do saber
que tanto zela
pelas letras, história, filosofia e
ciências em São Paulo,
que é a Academia
Paulista de
Letras.
Aos meus parentes e amigos
que aqui compareceram, quero registrar um comovido agradecimento. Sempre recebi deles o
estímulo para descobrir, o apoio
para inventar e a
paciência para me escutar. Muito obrigado.
___________________________________
Notas:
(1) Posse realizada no dia 18 de
março de 2004
na sede
da Academia
Paulista de
Letras.
(2)
Affonso Schmidt, A Vida de Paulo
Eiró, São Paulo: Companhia Editora Nacional (Coleção Brasiliana, 1940).
(3)
José Pedro Leite Cordeiro, "Paulo
Eiró, o Poeta de Santo
Amaro", Revista
da Academia
Paulista de
Letras, Ano XXIX, Junho de 1972, no. 79. O nome
Nectária teria sido confirmado
pela própria
Ambrosina que no
seu leito de morte, perto dos cem
anos, recitou-os com amor, dando a notícia aos
presentes que foram a ela oferecidos
por Paulo
Eiró na sua juventude.
(4) Paulo
Eiró, Sangue Limpo (Prefácio), São Paulo: Departamento de Cultura
da Prefeitura Municipal, 1936.
(5) A tuberculose era a principal ceifadora de vidas no final do século XIX, tendo sido responsável
por 40%
da mortalidade entre 1894 e 1917. Cláudio Bertolli Filho - Epidemia e Sociedade: A Gripe Espanhola em São Paulo de 1918, São Paulo: Editora Paz e Terra, edição de 2003.
(6) Datas referentes aos
anos da posse e do falecimento dos
acadêmicos.
(7) Honório de Sylos, "Tempos de Vacas Magras", Revista
da Academia
Paulista de
Letras, Ano LXVIII, janeiro de 2004, no. 120.
(8) Emplasa, Memória Urbana - A Grande São Paulo até 1940, São Paulo: Emplasa, Imprensa Oficial do Estado, 2001. Vol. I, p. 50-51.
(9) SEADE, Indicadores Demográficos, São Paulo: Governo do Estado de São Paulo, 2004.
(10) Valdomiro Silveira, "Valentia", em Os Caboclos, São Paulo: Edição
da Revista do Brasil Monteiro Lobato e Cia., 1920.
(11)
José Pastore, "O Custo dos Acidentes do Trabalho", Brasília: Confederação Nacional
da Indústria, 2001.
(12) Luciano Gualberto, "Profissão de Fé", in Torre de Babel, São Paulo: Indústria Gráfica Cruzeiro do Sul, 1948.
(13) Ataliba Nogueira, Antônio Conselheiro e Canudos - Revisão Histórica, São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1974.
(14) Ataliba Nogueira, O Estado
é Meio e
não Fim, São Paulo: Saraiva e Cia. Livraria Acadêmica, 23. Edição, 1945, p. 153.
(15) Ibiapaba Martins, Falam
os Muros
da Cidade, São Paulo: Editora Brasiliense Ltda., 1950,
(16) Ibiapaba Martins, Sangue
na Pedra, São Paulo: Livraria Martins Editora, 1955.
(17) Ibiapaba Martins, A Flor e o Estandarte, São Paulo: Editora do Escritor, 1975.
(18) Ibiapaba Martins, Carta
para Mãe do Tempo, São Paulo: Global Editora e Distribuidora Ltda., 1980
(19) Alusão às inúmeras viagens internacionais empreendidas
pelo Presidente Luis Inácio Lula
da Silva nos
anos de 2003-04.
(20) Robert W. Fogel, The Fourth Awakening, Chicago: University of Chicago Press, 2000.
(21) Francisco Brasileiro, Na Serra do Roncador, São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1938.
(22) Francisco Brasileiro, Monografia Folclórica sobre o Rio
das Garças, São Paulo: Departamento de Cultura, 1948.
(23) Francisco Brasileiro, Os Bruxos, São Paulo: Instituição Brasileira de Difusão Cultural Ltda., 1983.
(24) Francisco Brasileiro, "Poranduma", in Poesia, publicado em São Paulo
por Ana Maria e João Araguaia, 1976.
(25) Mario Donato, "As Caminhadas de Francisco Brasileiro", Revista
da Academia
Paulista de
Letras, Ano XLIV, Abril de 1992, no. 107.
(26) Domingos Carvalho
da Silva, "O Poeta", Revista
da Academia
Paulista de
Letras, Ano XLIV, Abril 1992, no. 107.
(27) Domingos Carvalho
da Silva, "Canto em Louvor
da Poesia", Revista
da Academia
Paulista de
Letras, Ano LXVI, Junho de 2003, no. 119.