Discurso de Posse em 23/05/1962
Oração de posse do Acadêmico Paulo Bomfim,
Aqui, em
campos de
Maio,
Em
chãos de
Arouche e
Rendon,
Evocamos as auroras
Que adormeceram no
asfalto,
Invocamos o
passado
Que jaz no
sangue, no
espaço,
Nas almas
da madrugada,
No
mistério, no
atavismo
Destes numes tutelares;
Vigília d'armas,
capela,
Meditação nos
destinos
Da terra de
nossos mortos,
Nos
rumos de
nosso povo,
No
amanhã de
nossa História,
Na hora da encruzilhada,
No
instante das decisões,
Quando unimos numa prece
Navegantes,
sertanistas,
Abridores de
fazendas,
E
raças,
crenças e classes
Se
irmanam no
mesmo rio
Que marcha para o
futuro!
Quarenta rostos de
ontem
E
vossos olhos de agora
Seguem meus passos de
moço,
Velam por mim na vigília
Da antemanhã quase eterna,
Quando me
fazeis dos
vossos
E me
armais com
vossa Fé!
Creio na força do
verbo,
Nos
destinos da palavra,
Espada,
escrita e
falada
Servindo nas grandes causas;
Creio no ideal
da cultura,
Na beleza imperecível
Que transforma a
argila em
luz;
Creio em
vós,
irmãos mais velhos,
No
exemplo de
vossos rumos,
No
facho de
vossos gestos;
E,
nesta noite de
Maio,
Quatro vidas me
norteiam,
Quatro destinos apontam
Quatro caminhos de
sol!
É Antônio de
Godoy
Com a
juventude que o tempo
Jamais consegue roubar,
Paladino em
seu murzelo,
Vem cavalgando distância
Criando com
sua audácia,
"
Crônicas de
Egas Moniz";
É a
presença amiga e boa,
José Vicente
Sobrinho,
Com
seu voto de
humildade,
Seu talento enveredando
Em "
Contos e Fantasias";
Depois é Veiga Miranda,
Engenheiro de
engenhar,
"
Faiscadores", "A
Prancha",
E o
perfil imorredouro
Do
gênio deste São Paulo,
Do
poeta baironiano
Que as
alvoradas retêm
Entre as
cordas de
neblina
Da "Lira dos
Vinte Anos";
E agora a
última estrela
Iluminando este céu,
Presença de
Plínio Ayrosa,
Do
Mestre de
gerações,
- E a
língua de
nossas tabas
Permanece além do tempo,
Coberta de
plumas verdes,
Com
seus dialetos de
guerra
E
semânticas de amor!
E,
nesta noite de
sempre,
Quatro vidas me
norteiam,
Quatro destinos apontam
Quatro caminhos de
sol!
E
é Maio no
meu São Paulo,
E o
prédio da Academia
É brasão de
descoberta,
É oceano quinhentista,
É coração que palpita,
É oração do Padre
Anchieta,
Arrancada bandeirante,
Arraial de
mamelucos,
Monção dos
rios do
sonho,
Colina de
Independência,
Delírio de
cafezais,
Burgo alegre de
estudantes,
Baluarte da abolição,
Floresta de
arranha-céus,
Terra
rubra, terra
roxa,
Ilha herdando a
força heróica
Das
águas de
meu Tietê,
Ilha herdando a
santa força
Das
bênçãos do
Paraíba!
E
é Maio no
meu São Paulo,
Vinte e
três no
calendário;
Trinta e um
anos depois,
Moços de
cabelos brancos
Caminham com Ibrahim
Rumo a
todas as
batalhas!
E
ao toque de
sua voz,
Ao lampejo de
seu estro,
Ao aço de
seus ideais,
Aqui, em
campos de
Arouche,
Nossa fé e
nossa causa,
Nossa luta e
nosso sangue,
Nossa paz e
nossa guerra,
Nosso chão,
nosso amanhã,
Nosso amor e
nossa luz,
Respondem numa só voz:
-
Presente,
sempre Presente!