Discurso de Posse em 17/03/2005
SER PAULISTA
Primeiro foi o mar, selva noturna/
Com solidões de estrela na manhã.
Houve marcos plantados em salsugem/
E fronteiras na espuma descoberta.
Primeiro foi o mar, o chão de espanto/
Sulcado pela quilha dos arados.
Depois, houve caminhos e sementes/
O sonho despertou areias brancas/
E a treva amanheceu em madrugada
(Versos do “Armorial” de Paulo
Bomfim).
Minhas senhoras e
meus senhores:
Primeiro é sempre o mar. A
imensidão oceânica nos
separando da vida ou daquilo que nós gostaríamos que fosse
nossa vida.
Depois das ilusões da infância a
realidade do
mundo surge
como um
imenso oceano a
ser cruzado numa pequena caravela,
capaz de nos
levar ao outro lado,
onde esperam que arranquemos eldorados das profundezas da terra,
mas onde terminamos por arar o solo e plantar
nossos sonhos.
A
imensa maioria não tem coragem para iniciar a
travessia.
Teme a
caravela, e
os monstros que podem assombrar a
viagem, e as
tempestades, e
os próprios medos.
Teme, se
cruzar o mar,
encontrar a nova terra. E o
desconhecido plantado depois das praias. Se
apavora com a
idéia de
ter que fazer. De
ter que ser. E
decidir.
É sempre bom ter um
oceano como desculpa para não partir,
ainda que do
outro lado possa brilhar um novo
céu,
povoado de
estrelas desconhecidas e
maravilhosas.
Mesmo que do
outro lado existam praias com
palmeiras e o
sol ilumine “uma estrada com
sete palmos de
largura,
plantada com
uma grama especial
que a
protege dos
avanços da mata”.
Mesmo que em
algum trecho deste caminho os altos
da serra recém transposta abram horizontes deslumbrantes que convidam a
cruzar campos cortados por rios imensos e cercados
por árvores milenares
que contam no barulho
das folhas a história do tempo.
É melhor ficar do
que partir. Aceitar a submissão à velha ordem,
ao conhecido, à rotina milenar
que espreme
os homens
como se fossem caranguejos e
os impede de pensar, dando em troca a calma ilusória de
que felicidade
é passar a
vida na mesmice de
sempre, sem qualquer desafio, dentro
da velha apatia atávica
que amarra o neto
ao mesmo medo do avô.
Mas há
os que aceitam o desafio,
os que desde
sempre imaginaram as proas cortando as ondas, enquanto a esteira do barco deixa um rastro de
espuma iluminado pelo
sol clareando as rotas e desenhando
os portolanos.
A
travessia é longa, tediosa, infernal,
mas do
outro lado está a praia com
palmeiras e
depois dela
os mistérios
para serem desvendados, a terra
para ser conquistada,
os eldorados para recompensarem a
coragem de
partir. São Paulo
é isso. São Paulo representa isso. São Paulo
é o grande prêmio
para quem acredita nisso.
Primeiro foi o mar. O esforço
da travessia. A solidão
das estrelas nas manhãs marinhas, até o
espanto da nova terra, iluminada
por um
sol radiante, com praia sem
palmeiras e fechada
por um paredão formando
uma muralha intransponível, quando vista do mar.
Depois foram
os vales e montanhas transpostos
pela rota mágica
da estrada imprevista, até o
outro lado da íngreme
serra,
onde os rios correm
ao contrário e o clima
é ameno o ano inteiro, convidando, primeiro,
para ficar, tomar fôlego, e, a seguir, tocar em frente, deixando o mar
para trás e com ele a possibilidade
da volta
para a
vida mesquinha de antes
da viagem.
Nos
campos longe
da costa a cidade nasce humilde, pobre e permanece
pequena. Seus habitantes são homens e mulheres de todas as origens e de todas as partes,
que deliberadamente subiram a
serra, em busca
da liberdade infinita de poder sonhar nas noites iluminadas pelas
estrelas de
outro céu,
ainda virgem e sem rotas marcadas, delimitando a capacidade de dormir e de
fazer destes
sonhos a
realidade de
uma nova nação, arrancada dos confins
da terra
pela força dos braços,
pela resistência dos pés e
pela certeza dos
sonhos.
Homens e mulheres capazes de suportar
os maiores sofrimentos, de passar fome, de
não ligar
para a dor, nem
para o sangue derramado, e de usarem
os ossos dos mortos caídos
na jornada
como rosas do vento apontando
os rumos
para os que vierem
depois.
Em troca de manter a independência e a liberdade de escolher o próprio destino,
os paulistas abriram e conquistaram mais de metade do território brasileiro, tomando à força
para a coroa portuguesa
uma parte enorme
da América do Sul, adormecida em falsa segurança, sobre um
chão de riquezas muito além
da imaginação
ou da tradição dos tesouros mais ricos.
Para eles, o importante
sempre foi tocar em frente, seguir a impaciência de seu inconformismo, abrindo a mata, arando a terra,
para plantar
sonhos e arrancar
das profundezas das lendas fortunas tão grandes
que financiaram o pragmatismo
da revolução industrial inglesa.
O paulista
é antes de tudo um inconformista e um inconformado. Para ele o
mundo deve
ser permanentemente desafiado porque
na seqüência
da vida tudo pode
ser feito de
outro jeito e tudo pode
ser melhorado.
Depois de cada palmo conquistado, à custa de esforços extraordinários, existe outra
serra para ser transposta,
outro rio
para ser cruzado,
outro céu para deitar embaixo e deixar
estrelas desconhecidas velarem pelo sono, ritmado pelo cansaço de mais um dia de trabalho incessante, sob o calor do
sol ou o alívio
da chuva,
sempre atrás de um novo
sonho e
da possibilidade de transformá-lo em
realidade.
São Paulo
é o único estado
que tem em sua bandeira o mapa do Brasil. E
é lógico
que seja assim porque
não há
chão brasileiro
que não tenha sido regado com sangue paulista.
Saindo, desde a segunda metade do século 16, de suas vilas acanhadas do
outro lado da serra quase intransponível,
os paulistas marcharam - e marcham - em todas as direções, cruzando
os pontos cardeais
para amarrarem a unidade do território nacional nos
nós deste avançar perene
que fez – e faz - primeiro um
imenso país e,
depois, cada vez mais rica,
uma grande nação.
Não custa lembrar
que foi de São Paulo e seus arredores
que partiram
os homens
que conquistaram e povoaram em primeiro lugar o Paraná, Santa Catarina e o Rio Grande do Sul. Que
foi de São Paulo
que partiram
os primeiros desbravadores do sertão do Araguaia e do Tocantins. Que foram paulistas
que colonizaram a margem esquerda do rio São Francisco. Que foram paulistas
que subiram
para povoar o Piauí e o sertão do Ceará. Que foram
os bandeirantes
que tomaram e ocuparam
os dois Mato Grossos, e arrancaram do leito dos
rios o ouro de Goiás. E esta marcha continua viva, dinâmica, colorindo de progresso e riqueza
os horizontes do Brasil.
As universidades paulistas estão entre as melhores do país. As estradas de São Paulo são as melhores do país. Os portos de São Paulo escoam
uma enorme parte
da riqueza do país. As fábricas, o comércio e
os serviços paulistas geram, direta e indiretamente, a maior parte
da riqueza nacional.
Há 500 anos o paulista luta corajosamente pelos seus
sonhos de
uma vida mais rica e um
mundo melhor. Pelos seus
sonhos de liberdade e independência individual. Pela certeza de um dia glorioso, recompensando seus esforços. E assim luta
para manter, preservar e desenvolver o Brasil.
Lutou primeiro no seu próprio
chão.
Depois no Rio de Janeiro. E
na Bahia, e em Pernambuco. Lutou no sertão do Guairá, nas missões
das fronteiras do sul, no Mato Grosso. Nas guerras
pela posse
da terra e nos movimentos
pela unidade do Brasil.
Mas luta também no campo de batalha dos grandes negócios, dos empreendimentos geradores de riquezas,
na implantação de novas tecnologias, no desenvolvimento e consolidação de novas alianças, unindo o Brasil
ao mundo.
E luta a luta heróica do dia a dia anônimo – a maior de todas as lutas,
que une nas tarefas cotidianas as esperanças
das gerações – fazendo
da melhor maneira possível o pouco
que cada um de
nós pode
fazer para fazer melhor a
vida das pessoas.
Este
é o grande traço do paulista. Ele
é um lutador e
não teme lutar o
bom combate, nem
cruzar os mares, nem dormir sob um
céu com novas
estrelas. Também
não teme
os eldorados arrancados
das lendas, nem semear
sonhos nos
campos regados com o seu suor.
O paulista detesta a apatia,
os medos ancestrais, a falta de vontade de tocar em frente, o medo de
ter medo.
Ele
é um lutador eternamente inconformado com o
que ainda não foi feito de um jeito melhor. Por isso São Paulo, desde o seu mais remoto começo,
é um imã, atraindo gente disposta a pagar pra ver, e
fazer o
que tem que ser feito, porque
tem que ser feito.
Ser paulista
é ser solar, claro, generoso, pensar nos outros e
fazer e lutar,
por si e
por um
mundo melhor. Ao mesmo tempo
é quase
ter vergonha de contá-lo. A tal ponto
que a
maioria da população sabe
que somos o estado mais rico do país,
mas não sabe
como aconteceu esta história.
Mas
ser paulista vai além, ultrapassa as noções de terra, de berço e de corpo,
para se entranhar
na alma, no canto luminoso
onde se forjam as vontades. Porque
ser paulista
é um ato consciente,
uma expressão de vontade,
ou a determinação imposta
não como um castigo,
mas como uma missão, traçada pelo destino. Não importa o local do nascimento, nem a origem, a raça
ou a religião. Importa apenas a gana de
fazer bem feito, desafiando céus e mares
para chegar lá, saindo
da vila escondida atrás
das serras
para mergulhar de cabeça
na metrópole indomável.
Eu entro
na Academia Paulista de Letras sem dúvida nenhuma feliz, pelos amigos
que eu tenho e
que generosamente me elegeram, antes de tudo
pela minha escolha consciente de querer
ser paulista, despertada
por uma frase ouvida
na piscina
da fazenda
da família, quando eu
ainda era menino: “tem gente
que nasce com a obrigação de dar e
tem gente
que nasce com o direito de exigir”.
Cumpria dar, e
na medida do possível,
fazer bem feito. Não posso julgar
meus passos,
mas confesso
que, em média, minha falta de sono
não é decorrência de
uma consciência pesada, nem de remorsos, até mesmo
daquilo que eu
não fiz.
Chego
na Academia Paulista de Letras honrado
por, paulista
por nascimento e opção, pertencer a mais
uma entidade tipicamente paulista,
como também o
é a Santa Casa de Misericórdia de São Paulo,
onde sou irmão mesário. Mas chego humilde, com essa quase vergonha de
ser paulista, pelo tamanho
da obra de
meus companheiros, nas mais diversas atividades, e
pela singeleza de
meus poucos feitos.
Venho ocupar a cadeira de Ezequiel Ramos, vaga com a morte do poeta Geraldo Pinto Rodrigues, expoente
da geração de 45, jornalista de escol e paulista
por nascimento e opção, a quem desde já peço perdão se
não der à cadeira
que ocupou o mesmo brilho
que ele lhe emprestava, dignificando-a,
na continuação dos outros
que vieram antes, a saber Ezequiel Ramos Junior, o fundador, Lourenço Filho
que o sucedeu e Fernando Ferreira de Góes.
A Academia Paulista de Letras
é um microcosmo
que retrata dentro de suas características únicas, as características mais marcantes do melhor de São Paulo. Fundada em 1909, a quase centenária casa de cultura
sempre foi aberta a todos
os paulistas, de nascimento e
por opção, tanto
que entre seus fundadores, 14
não nasceram no estado,
mas escolheram
fazer suas vidas em São Paulo.
E até hoje, reproduzindo a
realidade paulista, ela se orgulha em aceitar gente
das mais diversas partes do Brasil e do
mundo,
que, em outras latitudes,
podem ser inimigos de morte,
mas que aqui, nas terras de São Paulo, formam um único povo, irmanado
numa única vontade férrea e
na certeza de
que a liberdade
é o maior de todos
os bens.
Eu sei
que as bruxas
não existem,
mas como diz o espanhol “que las ay, las ay”. Se
não,
por que força do destino eu seria eleito justamente
para a cadeira número 32? 32 de 1532, ano
da fundação
da Vila de Piratininga
por Martim Afonso de Souza, auxiliado
por João Ramalho. 32, de 1932,
da Revolução Constitucionalista e
da luta
por um Brasil mais moderno e mais justo. Quando em setembro daquele ano São Paulo perdeu a guerra, com a vitória, o Brasil perdeu a chance de entrar no primeiro
mundo.
Só me resta agradecer a todos
que de
uma forma
ou de outra somaram comigo, dividiram comigo, lutaram, trabalharam, amaram e acreditaram num
mundo melhor, junto comigo. Muito obrigado a todos
que me ensinaram tanto, sem pedir nada em troca, e em cuja amizade eu tive
sempre um porto seguro nos momentos difíceis.
Meus agradecimentos aos paulistas
por berço
ou opção e aos amigos vindos de outras partes do Brasil,
que também,
como os paulistas, dão um duro danado, enfrentando a
vida de frente, plantando
sonhos e
os fazendo viver. A todos, o meu muito obrigado
por, com sua luta, me ensinarem a querer um
mundo de luz e a
ser, antes de tudo, brasileiro.
Antonio Penteado Mendonça