A
primeira incursão na noite foi feita em
companhia de
meu primo mais velho.
Estreando as
calças compridas entrei clandestinamente no Imperial, o “cabaret
da belle
époque” paulista.
Sua dona Bianca
Perla era um
documento vivo dos
fastos de
nossas madrugadas. O Imperial com
seus camarotes,
sua freqüência de
coronéis do
café e
cocotes francesas,
desapareceria pouco depois dando lugar ao Cine
Ópera. Nos
fundos, o
Teatro Apoio onde desfilavam companhias estrangeiras e
artistas nacionais: Raul
Roulien com
seus tangos,
Procópio com
sua ironia,
Genésio Arruda com
sua graça cabocla.
Conseguíamos ser boêmios e
esportistas ao mesmo tempo. O
remo no
Tietê, o
boxe com
Waldemar Zumbano e Kid
Jofre, a
natação com Sato, a
ginástica com
Delaunay,
entremeados com o
chope do
Franciscano e do
Pingüim, com o
mexidinho e o
bauru do
Ponto Chic e com as
brigas no OK e no
Tabu.
As
proezas do
Jaguaribe e de
seu bando ainda ecoavam no
Juca Pato e
outros bares
da São
João. Jorge Ferreira, o
“Sangue Azul”, o
“Vavá”, o
Tenente “Mineirinho”, o
Castelão e
sua turma,
viravam a
madrugada pelo avesso.
Anúncios luminosos gritavam em cores o
nome de
seus pecados:
“Albergue da Mariana”,
“Pássaro Azul”,
“Wunder Bar”, “Tropical”,
“Salão Verde”. A
Praça Julio de
Mesquita era a
fronteira agreste entre a
boêmia elegante e o
basfond. As balalaikas do
“Rostoff” haviam se
passado para o “Rialto”
na Rua Vitória. Paulo
Vanzoline e
eu dividíamos as
honras da poesia naquela região proibida.
Ele no “Bar
Boêmio” da Rua Aurora e
eu, com
meus companheiros da Faculdade, no “Rialto”.
Mais para baixo ficava o bar “Marfim”, gerenciado pelo Rosário que possuía
mais cultura literária do que todos nós. Na Aurora também os bares “Rio Branco”, “Tico Tico”, “Internacional”. Na Rua dos Gusmões o “Mickey Mouse” e o “Lanterna Mágica”, tinham ligação direta com o Gabinete de Investigações
onde terminavam todas as desordens. Comíamos pizzas no “Gigeto” e no “Spadoni”, no “Batista”
da Praça
da República e no “Giordano”! Macarrão no “Viareggio”, no “Corso” e no “Tebaida”, e filé no “Moraes”, que nessa época funcionava
na Conselheiro Crispiniano. Discutíamos o Lobo
da Estepe no “Palhaço”, namorávamos
na “Vienense” e
na “Selecta”
ao som de Valsas de Strauss, convivíamos com a música popular no “Parreirinha” e no “Simpatia”. Depois seria
na “Yara” e no “Escócia” com fundo de “La vie em rose”. Os bailes
da Madame Poças Leitão,
da “Hípica”, do “Paulistano” e do “Harmonia” e as festas em casa de Paulo Assumpção faziam parte do roteiro
da mocidade. Carnaval acabava sempre no “Odeon”. Freqüentávamos saraus em casas respeitáveis, jogávamos bidu no “Supremo” em
companhia do Peru Martins Ferreira, do Bebê Amaral e do Antoninho Rocha Campos, o “Kid Metralhadora”. No “Hungria” e no “Bar Viaduto” enquanto as orquestras tocavam, conspirava-se contra a ditadura de Vargas.
Hermano Ribeiro da Silva, morrendo nos sertões do Araguaia, transforma-se numa lenda. O “Candy” era o primeiro passo sentimental na conquista das bailarinas que visitavam nossa capital. E havia também o chá do “Mappin” e da “Casa Alemã”, com galanteadores à porta e elegantes em trânsito. O “Clubinho dos Artistas” nasceria bem mais tarde no Edifício Esther, engatinhando na Barão de Itapetininga, e envelhecendo na Bento Freitas.
Vida contraditória, geração que se perdia e se encontrava nos descaminhos da política e da boêmia. A vida social nas casas das “madames” da época era importante. Tínhamos sempre encontro marcado na “Dadá”, na “Amélia Preta”, na “Geny das Tranças”, na “Rosinha”, na “Yara”, na “Ceci”, na “Francina”, na “Roberta”, na “Mathilde”, na “Dulce” ou na barra pesada do Bom Retiro onde a Paulete, cultíssima, declamava Verlaine e me deu de presente a “Introdução à Antropologia” de Ralph Lynton. Nesses locais discutia-se poesia e filosofia entre um romance e outro.
Encontro Juliete no Viaduto. A grande amiga dos boêmios confessa estar com oitenta anos. Beijo em seus cabelos brancos, as derradeiras neblinas de minha Paulicéia desvairada.
São Paulo modificava-se. A boate invadia a vida noturna. Apareciam o “Roof” de “A Gazeta”, o “Jequiti Bar” e o “Oásis” povoados de beleza e de classe. A noite tomada por tias, primas e amigas da família, civilizava-se e deixava de ser livre.
Uma década depois, sobreviviam apenas o “Siroco” da Branca, a dama da madrugada, e o “Refúgio” de Nenê Pé de Anjo.
Na “Livraria e Salão de Chá Jaraguá” é criada a “Revista Clima”, sofisticada e culta.
Surge o “Nick Bar”, o último lugar inteligente da antemanhã. Ao som de seu piano encerra-se um ciclo de loucuras adoráveis. O espelho me diz que é hora de tomar juízo. Nunca mais quero ouvir a voz de um espelho. É tempo de recordar.