Enquanto a
equipe de
médicos chefiada por Eurícledes de Jesus
Zerbini e
Luís Decourt,
realizava no Hospital
das Clínicas o
primeiro transplante de
coração, o
músculo cardíaco da civilização batia de
maneira desordenada.
Em
todos os cantos do
planeta podia ser ouvido o
ruído surdo das rebeliões irrompendo vulcanicamente da terra.
Assassinato de Luther King em Memphis, no Tennessee, a
morte de Bob Kennedy em Los Angeles, a
Rússia reprime com
seus tanques a “Primavera de
Praga”,
astronautas circundam a
Lua duas vezes,
protestos de
trabalhadores e de
estudantes liderados por Daniel
Cohn-Benedit sacodem em
Maio, a
doce França dos
cançonetistas e do general De
Gaulle.
Longe das chamas da Guerra do
Vietnã,
os Beatles
mergulham no Ganges
à procura de
paz, sob a aura do guru
Maharishi Mahesh Yogi.
No
Brasil, no
dia 28 de
março o
estudante Edson Luís de Lima
Souto,
morre no
“Calabouço” em
conflito com a
tropa de
choque da Polícia Militar do Rio de Janeiro.
O
artigo que escrevi no
“Diário de São Paulo”
contribuiu para apressar minha saída do
jornal.
Voltara à Faculdade, e
esse artigo foi redigido para ser um manifesto
que acabei publicando também em “A
Gazeta” e
lendo no
programa radiofônico “Gazeta é Notícia”.
Meu regresso ao Largo de São Francisco,
é recebido com
alguma perplexidade pelo alunos. Era
como se o
fantasma de
épocas mortas aparecesse no
pátio com
sua bandeira de
sonho e de
inconformismo.
Embora lutando pelos mesmos ideais,
falávamos linguagens diferentes.
Ao entrar no
prédio, o
primeiro abraço que recebi foi de
Goffredo da Silva
Telles,
meu irmão em São Francisco.
Quando José Luís de
Anhaia Mello me
vê sentado entre os alunos,
indaga surpreso:
–
Ué, Paulo, o
que você está fazendo aí?
–
Sou seu aluno –
respondo.
Anhaia recorda à classe que fora meu colega no
Colégio São
Luís e
companheiro de
boemia durante muitos anos.
Termina dizendo que o
filho pródigo voltava ao lar.
Na aula, Mauro
Brandão Lopes se
apresenta e
pergunta se
alguém ali sabia quem ele era.
Da última fila respondo:
– O
senhor é o professor Mauro
Brandão Lopes,
filho de
meu amigo Juarez do Prado Lopes e de D.
Glorinha.
Surpreso procura com
olhos o
lugar de
onde vinha a
resposta:
–
Só pode ser o Paulo
Bomfim,
que é muito bem-vindo!
Quando Paulo
Carneiro Maia
entra pela primeira vez na sala e me
vê,
emociona-se lembrando de
nosso relacionamento que datava da juventude;
das festas em casa de Alfredo
Aulix Pimentel Marques, e
das reuniões na residência de
meus tios Theodomiro e
Cecília.
Reencontro um Paulo
diferente daquele que conheci vestido com a
farda do
CPOR. Era um
homem doente e
envelhecido,
que tivera derrame e se
locomovia com
dificuldade.
Mesmo enfermo,
continuava a
dar aulas e a
colocar seu escritório de
advocacia à disposição dos
alunos.
A
Faculdade era
uma panela de
pressão mal
ajustada,
soltando fumaça e
estremecendo à medida que o
fogo se
tornava mais forte.
Os alunos passam a
enfrentar o professor com
piadas e
barulho.
Certa noite, um
rapazola entra na classe com um
microfone e
grita:
–
Inicia hoje o
boicote às aulas do professor Paulo
Carneiro Maia.
Evacuem a
sala!
Os colegas,
quase todos homens de
mais idade que frequentavam o
curso noturno,
foram saindo de
cabeça baixa.
Quando a
classe ficou vazia, o
jovem do
microfone me
interpela:
–
Você não vai sair?
–
Não! –
respondo.
–
Mas é uma ordem! –
retruca o
outro.
Nesse instante o
bedel passa com o
livro do
ponto e
pergunta se
eu não iria assinar.
–
Não,
não assino.
Quero ter falta.
E
virando para meu interpelante,
prossigo:
– Como
aluno tenho falta,
mas como homem fico ao lado de um amigo
que precisa de
mim.
Paulo
Carneiro Maia,
entra se
arrastando na sala.
Vê as
cadeiras vazias,
olha para mim,
dizendo com a
voz embargada:
–
Só você,
meu amigo,
ficou!
Do
lado de
fora, a
estudantada tentava arrombar a
porta.
Paulo
Carneiro Maia
pede que eu saia com
ele pela saída dos
professores.
Não concordo e
digo que sairei pela porta por onde entrara.
Quando essa porta foi aberta, o
pátio estava repleto de
alunos esperando minha saída.
Não pensei duas vezes,
levantei-me e me
dirigi para o
centro do
furacão.
Centenas de
estudantes abrem clareira em
torno de
mim.
Surge
então um
moço forte, de
fala mansa,
que indaga:
–
Poeta,
por que você fez
uma coisa dessas?
–
Porque sou fiel a
meus amigos e
achei que a
manifestação contra um
homem doente como o professor Paulo
Carneiro Maia era
uma atitude que não cabia dentro das tradições de
generosidade do Largo de São Francisco!
–
Mas você assinou o
livro de
frequência –
prossegue.
O
bedel que passava no
momento com o
livro,
abre a
página onde não constava minha assinatura.
O
estudante que me
interpelava olha para mim,
segura-me pelo braço e
diz:
–
Você é um samurai,
vamos sair daqui.
Atravessamos aquela multidão que foi abrindo passagem, em
silêncio.
Ao se
despedir de
mim,
meu salvador diz:
–
Dentro de
pouco tempo as
coisas vão piorar,
haverá confrontos e
certamente,
estaremos em
campos opostos.
Levo comigo a
beleza de
seu gesto.
Adeus!
O
moço seguiu pela Xavier de Toledo e
eu tomei o
rumo da Avenida Ipiranga,
onde morava.
Dias
depois,
os estudantes ocupavam a
Faculdade.
Muitos anos mais tarde,
na porta da Igreja de Santa
Terezinha,
na Rua Maranhão,
Ary Belfort me
apresenta um
senhor grisalho:
– Paulo,
você conhece meu irmão Ulisses?
Uma voz me
saúda:
–
Oi, Samurai!
Há muito tempo
eu devia aquele abraço a um
Ulisses que me
retirou de
uma Tróia incendiada de
paixão.