Na sede do
antigo Automóvel Club,
na Rua Libero Badaró, o
retrato de
José Pinto
Alves, de
autoria de
Baloni,
fitava com
ironia as
gerações de
sócios que se
sucediam.
Ele e "
Pimpolho" de Sousa
Queirós assinalam uma galeria de
pessoas raras.
O
apelido "
Tico-Tico"
veio do
rosto pintalgado de
sardas igual ao ovo daquele passarinho.
Elegante e
exótico,
esse primo,
filho de
meus tios Nicota e
Valdomiro Pinto
Alves,
juntamente com
seus amigos
Fernandinho Prestes e
Luís Antônio Fonseca,
fizeram da cidade seu parque de
diversões.
Lembro-me,
quando pequeno, de
acordar à noite, com
tropel no
cimento da casa de
meu avô,
onde estava morando. O
primo havia desatrelado e
solto o
cavalo de
uma carrocinha de
padeiro dentro dos
muros da casa dos
tios.
Na década de 20,
foi estudar na Alemanha, e
como estava demorando para voltar,
tio Valdomiro incumbiu seu irmão Carlos, de
trazê-lo de
volta.
Ao chegar a
Berlim, Carlos se
apaixona pela pintora Mussia,
jovem baronesa russa fugitiva dos
bolcheviques que mataram seu pai,
almirante da marinha do Czar. Casa-se com
ela e
volta para São Paulo.
Mussia traria depois a
irmã Nina,
que se
casaria com
Tácito de
Almeida,
irmão de
Guilherme de
Almeida,
participante da Semana de
Arte Moderna e um dos
fundadores da Escola de
Sociologia e
Política.
A
figura de Carlos Pinto
Alves foi bem retratada por Tristão de
Athaíde,
que fala desse aristocrata de
hábitos franciscanos, amigo de
Murilo Mendes,
Ismael Nery, Gustavo
Corção e Roberto
Alvim Correia.
"
Tico-Tico",
regressa também ao Brasil,
desembarcando no
porto de Santos
acompanhado de um
secretário e de um
macaco amestrado. O
alemão chorava tanto com
saudades da mulher que tio Valdomiro acabou mandando buscá-la.
Certa vez,
na saída de um
espetáculo de gala no
Teatro Municipal,
ele e
Fernandinho Prestes,
filho de
Júlio Prestes,
resolveram apostar corrida à Ben
Hur, em
dois carros da limpeza pública puxados a burro.
Diante de
uma platéia de
jovens da alta sociedade,
trajando a rigor,
os dois dispararam da Praça Antônio Prado
ao Largo
Paissandu.
Quando o
ioiô e a
raquete com
elástico que segurava uma bolinha,
chegaram a São Paulo, "
Tico-Tico"
podia ser visto na Praça do
Patriarca,
praticando eximiamente os dois jogos.
Em
suas motocicletas possantes,
ou nas baratinhas último tipo,
estava sempre competindo em
audácia com
os "
Bororós"
da família Amaral.
Inspirou paixões avassaladoras,
amou e
foi amado pelas moças mais belas da época. A
todas tia Nicota advertia: "
José não nasceu para se
casar."
Esse primo inesquecível viveu seus 40
anos de
vida a
custa dos
cafezais que produziam para que ele não precisasse trabalhar. No
brasão da família,
dizia ele,
deveria constar um
terço, um
baralho e
uma saia de
mulher.
No
dia de
sua morte,
homens elegantes,
chorosas damas enlutadas,
prostitutas,
boêmios e
garçons acompanharam seu enterro no
Cemitério da Consolação. "
Tico-Tico"
deixou o
que sobrou de
sua fortuna para o
albergue noturno.