Antigamente, – eu posso falar com conhecimento de causa – os pais eram os primeiros educadores. Eram eles que ensinavam o essencial para a convivência. Deles as crianças ouviam as expressões mágicas: “Por favor”, “Muito obrigado”, “Com licença”, e outras hoje igualmente esquecidas.
Os tempos são outros. Hoje ninguém cumprimenta ninguém. Ninguém pede favor. Quem toma ônibus, metrô ou adentra a um elevador, sabe que o empurra-empurra é a regra. Jovens permanecem sentados nos coletivos, enquanto pessoas idosas, carregadas de volumes, permanecem à espera de que alguma alma sensível lhes ceda um assento.
Por que isso acontece? Por uma série de razões. A primeira é a fragmentação e falência de uma escala de valores que está sendo substituída por um verdadeiro caos axiológico. Depois, foi relegada essa missão educativa do lar, em nome de uma nova concepção do que deva ser o treinamento social da infância.
A moderna pedagogia, alavancada pela exacerbação da autonomia individual, inibiu os
pais. Eles receiam traumatizar os filhos. Todos os sintomas da falta de educação de berço são atribuídos a distúrbios psicológicos. Os avanços da biogenética sofisticam as veredas pelas quais incursionam os especialistas em comportamento infantil. Nos Estados Unidos, mais de 10% do alunado nessa faixa etária apresenta sintomas de hiperatividade e de resistência à disciplina. Veicula-se que uma percentagem considerável se predestina à criminalidade.
Para combater essa tendência, ministra-se uma droga chamada retilina, para gáudio da indústria farmacêutica. Não será uma postura comodista, lançar sobre a genética a responsabilidade da leniência na educação doméstica? E assim vai, com as crianças “impossíveis”, os pais dizendo que não têm mais o que fazer para corrigi-los. Isso vai até onde? Será que a postura materno/paterna pode ser diferente ou se continuará nessa cultura de repasse? Os pais confiam que a escola educará seus filhos. A escola acha que isso é obrigação do lar. Tudo começa com uma falta de educação e de delicadeza. As pessoas têm vergonha de ser polidas? Um pouco mais de polidez faria mal ao convívio?