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Crônicas José Renato Nalini TRISTEZA DO JECA

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TRISTEZA DO JECA

Jeca Tatu, personagem de Monteiro Lobato, exprimiu a imagem do brasileiro da roça. Mesmo sabendo que “em se plantando tudo dá”, preferia aguardar as coisas acontecerem. Preguiçoso, ilustrou a propaganda do Biotônico Fontoura, estimulante para fazê-lo reagir. Lembrança da infância dos hoje sexagenários. Foi ele substituído, na modernidade, por um brasileiro pró-ativo? Alguém que, malgrado as dificuldades dos habitantes de um país periférico, tinha a coragem de assumir o controle de sua própria vida. Colaborou com essa renovação do perfil brasílico, a chegada do imigrante europeu, que veio para substituir o trabalho escravo.

Não foi só a lida agrícola que ganhou com ele. O imigrante conferiu salto qualitativo a outros misteres: o artesanato na marcenaria, nas técnicas de construção, no labor eficiente dos verdadeiros “mestres de ofício”. Muitos fizeram fortuna. Enfrentaram os preconceitos dos “quatrocentões”. Casaram-se com as brasileiras e salvaram muitas famílias da bancarrota. Para o aristocrata do império decadente, valia a regra: “Pai barão, filho indolente, neto miserável”. Querem hoje ressuscitar o mito do Jeca. É a atuação trágica dos que não sabem tutelar a natureza. Há um fosso intransponível entre a teoria e a prática. O discurso é edificante, mas, na verdade, o governo fecha os olhos ao desenvolvimento irresponsável que destroi a mata, contamina a atmosfera, polui a água e transforma o maior patrimônio dos brasileiros numa promessa frustrada.

A Medida Provisória da grilagem é uma vergonha nacional. Quem o afirma é Marina Silva, a seringalista com história bonita que não aguentou a pressão dos dendroclastas. A Amazônia será destruída muito mais rapidamente do que se possa imaginar. A maior parte dos brasileiros, cuja atenção está no futebol, no circo televisivo e nos shows que não podem parar, não vê que sua descendência poderá nunca ver a luz do sol.

Triste Jeca, a assumir seu destino periférico, em renúncia ao papel de provedor do universo e a perfilhar ao lado dos que, cruel e impunemente, dilapidam o que não construíram, mas que sabem destruir com rapidez e insensibilidade.
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