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Crônicas José Renato Nalini BARBAS DE MOLHO

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BARBAS DE MOLHO

Meus amigos sabem que eu tenho medo de avião. Acho bonito de longe. Quando estou dentro dele, invade-me um pavor paranóico. Nem sempre foi assim. Quando criança, sonhava viajar. A primeira vez que fui para a Europa, não me passou qualquer temor prévio ou durante a viagem. Até ajudei a confortar um amigo que se apavorava. Com o tempo, fui ficando medroso. Será que é o fato de ter filhos e com eles querer permanecer mais tempo? À medida que os anos passam, as viagens se intensificam, sinto-me desconfortável por temer aquele que é o meio mais seguro de viajar. Segundo dizem.

Outro dia, pensei o que aconteceria se estivesse no avião da TAM que enfrentou turbulência em Pirassununga, em procedimento de descida. Com certeza não teria sido arremessado ao teto, porque não desato o cinto de segurança durante toda a viagem. Até o caminhar das aeromoças me incomoda, pois parece que seus passos fazem o avião balançar. Mas, tenho a certeza, não passaria bem. Pressinto até que numa dessas, sofreria um enfarto. O que pensar, então, de um Air Bus 330, como o que a Air France perdeu no início da viagem entre Rio e Paris?

Isso me abate, como a todos os que tomam conhecimento dessas tragédias. Tantas vidas ceifadas. Tantos sonhos desfeitos. O casal em lua de mel. O professor que, obtido o êxito profissional/acadêmico, levava a família a comemorar. O jovem príncipe. Os executivos. O maestro, o chefe de gabinete, tantas histórias que tiveram o fim antecipado.

Para os que têm medo de viajar de avião, isso é terrível. Renova a paúra. Sentimento indomável, que não cede ante a argumentação científica. Estatística não cura pavor. É algo de instintivo, que brota na parte animal que a gente não consegue domar. Para os crentes, é uma oportunidade para pensar no rumo imprimido à própria vida. Ela pode acabar a qualquer momento.

Somos perecíveis, frágeis e de nada sabemos, a não ser que esta trajetória é finita. Não é bom retomar aqueles hábitos esquecidos de se reconciliar, de se livrar daquilo que incomoda e de falar aos amados que eles são importantes para nós? Por via das dúvidas, estou com as barbas de molho. E falo literalmente, porque ainda não consegui ficar sem elas.
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