Meus amigos
sabem que eu tenho medo de
avião.
Acho bonito de
longe.
Quando estou dentro dele, invade-me um
pavor paranóico.
Nem sempre foi assim.
Quando criança,
sonhava viajar. A
primeira vez que fui para a
Europa,
não me
passou qualquer temor prévio ou durante a
viagem.
Até ajudei a
confortar um amigo
que se
apavorava. Com o tempo,
fui ficando medroso.
Será que é o
fato de
ter filhos e com
eles querer permanecer mais tempo?
À medida que os anos passam, as
viagens se
intensificam,
sinto-me desconfortável por temer aquele que é o
meio mais seguro de
viajar. Segundo
dizem.
Outro dia,
pensei o
que aconteceria se
estivesse no
avião da TAM
que enfrentou turbulência em
Pirassununga,
já em
procedimento de
descida. Com
certeza não teria sido arremessado ao teto,
porque não desato o
cinto de
segurança durante toda a
viagem.
Até o
caminhar das aeromoças me
incomoda,
pois parece que seus passos fazem o
avião balançar.
Mas,
tenho a
certeza,
não passaria bem.
Pressinto até que numa dessas,
sofreria um
enfarto. O
que pensar,
então, de um Air Bus 330,
como o
que a Air France
perdeu no
início da viagem entre Rio e Paris?
Isso me abate,
como a
todos os que tomam conhecimento dessas tragédias.
Tantas vidas ceifadas.
Tantos sonhos desfeitos. O
casal em
lua de
mel. O professor
que,
obtido o
êxito profissional/
acadêmico,
levava a
família a
comemorar. O
jovem príncipe.
Os executivos. O maestro, o
chefe de
gabinete,
tantas histórias que tiveram o
fim antecipado.
Para
os que têm medo de
viajar de
avião,
isso é terrível.
Renova a
paúra.
Sentimento indomável,
que não cede ante a
argumentação científica.
Estatística não cura pavor.
É algo de
instintivo,
que brota na parte animal
que a
gente não consegue domar. Para
os crentes,
é uma oportunidade para pensar no
rumo imprimido à própria vida.
Ela pode acabar a
qualquer momento.
Somos perecíveis,
frágeis e de nada
sabemos, a
não ser que esta trajetória é finita.
Não é bom retomar aqueles hábitos esquecidos de se
reconciliar, de se
livrar daquilo que incomoda e de
falar aos amados que eles são importantes para nós?
Por via
das dúvidas,
já estou com as
barbas de
molho. E
falo literalmente,
porque ainda não consegui ficar sem elas.