Cinco anos mais novo, dormia no meu quarto. Eu nascera primeiro, tinha esse privilégio. Com dez anos, eu queria ler até tarde da noite. Ele queria dormir. Brigávamos por isso. Também o recriminava porque era comum tirar o suéter para entregar a uma criança com frio de quem se compadecia na rua.
Trazia para casa os pobres que encontrava e fazia minha mãe servir-lhes refeição. Eu não compreendia, então, sua inexcedível generosidade. Alertei-o de que sofreria revezes e ingratidão. O que mais tarde se verificou.
Alvo de um carinho especial e permanente por parte de minha mãe, sempre tive dificuldade em manifestar ternura. Ele, ao contrário, era beijoqueiro. Quase adulto, erguia com facilidade meu pai, segurando-o pelas pernas. Coisa que eu nunca ousara. Fazia festas, abraçava, cobria todos de beijos. Era exuberante nas manifestações de afeto.
À nossa maneira, nos adorávamos. Desentendiamo-nos, é verdade, como irmãos costumam fazer. Nada que pudesse criar um fosso intransponível em nosso relacionamento. No convívio adulto, ele me cumulou de provas sólidas de amor profundo. Éramos ambos chorões e juntos pranteamos inúmeras vezes. Eu, de maneira mais contida. Ele, da forma a mais vistosa e espontânea. Esteve ao meu lado nos momentos difíceis. Nas horas sombrias. Sabia que podia contar com ele para tudo. Seu amor era absoluto e incondicional.
Vibrava com minhas humildes vitórias. Presente sempre e em tudo, na admiração incontida de um caçula que foi treinado a agradar o primogênito. Mas que assumiu o prazer espontâneo que tirava disso. Quando nasceu o seu primeiro filho, João Otávio, pediu-me para ser o padrinho. Quis que eu fosse também padrinho da segunda filha, Ana Rita. Recusei-me, sob argumento de que, mais velho, poderia morrer logo e deixar ambos os afilhados desapadrinhados. Nunca esperei perdê-lo tão cedo.
Que pena que seus filhos não tenham conhecido a figura generosa, pura, desprendida, aberta e notável que ele foi. Mas hoje, vinte anos depois que ele partiu, são adultos que podem e têm motivos para se orgulhar desse pai sempre jovem. Tão melhor do que o irmão. Tanto assim, que logo se viu chamado a viver na eternidade e a sobreviver na lembrança dos que o amaram.