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Crônicas José Renato Nalini MEU IRMÃOZINHO

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MEU IRMÃOZINHO

Vinte anos se passaram, desde que perdi meu irmão João René. Ele tinha 39 anos, dois filhos pequenos. Morreu sem que esperássemos, deixando a família perplexa e os pais desesperados.

Meu pai nunca se conformou. Passou a visitar diariamente seu túmulo. Silente, introvertido, curtiu discretamente a sua imensa dor. Morreu menos de três anos depois. Minha mãe, de quem herdei a maior parte das características intangíveis, nunca escondeu sua aflição. Rememorou a vida do filho nos mínimos detalhes. Narrou infinitas vezes os mais triviais episódios de sua infância, adolescência, juventude e início de maturidade. Exauriu-se na relembrança de fatos, acontecimentos e casos. Chegou a folclorizar, conferiu tonalidades criativasna riqueza de minúcias colacionadas – a uma breve existência.

 Conseguiu, dessa maneira, sobreviver dezesseis anos ao filho pré-morto. Mas não houve dia em sua trajetória que deixasse de mencionar essa perda. A dor maior para quem traz à luz uma semente. A inversão da ordem natural é sempre terrível. Os pais presumem que os filhos os enterrarão. Inadmissível a aceitação do sofrimento supremo de enterrar a cria. E os irmãos? Ficamos aturdidos, estupefatos, abatidos, angustiados.

 O tempo cicatriza, mas não faz sumir a chaga. Irmão é coisa íntima. Ao se enterrar um irmão, sepulta-se uma parte mesma da gente. Assimila o que significa morrer aos poucos, aquele que teve de levar o corpo de alguém com o mesmo sangue ao cemitério. Vinte anos depois, a presença do René é ainda muito intensa em meu coração.

 Lembro-me dele criança – vivo, irrequieto, risonho, peralta. Diferente dos mais velhos, criados na disciplina inflexível da primeira geração peninsular brasílica. Não era com ele ganhar as medalhinhas de bom comportamento da Escola Paroquial, ostentada pelos “nerds” de então. Era simpático, bem-humorado, mas outro o seu estilo.

Conseguia do pai aquilo que os primeiros não obtinham com tanta facilidade. Vencia pela simpatia extrema. Era transparente, escancarado e convincente. Não havia quem o não considerasse excepcionalmente sedutor. Morreu antes dos 40. Hoje ainda não teria 60 anos.
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