A
crise econômico-financeira deste 2009
gerou reações em
todos os níveis.
Chegou à casa de
todos,
pois quem não pode deixar de
comprar alimentos já sentiu na pele o
custo acrescido de
quase tudo.
Quantas famílias não têm desempregados nela mesma ou em
grupos de
convívio?
Um
aspecto perverso é o
uso da crise para justificar todos os “não” que as
pessoas ouvem quando expõem suas pretensões. A
crise, agora,
legitima a
tendência natural
que é primeiro negar o
pleito,
sem mesmo refletir sobre alguma das maneiras de
atendê-lo,
ao menos em
parte.
É o
pessimismo,
acompanhado de um
certo fatalismo conveniente, a
acompanhar os sintomas do
descontrole global,
tangido pela invencível vontade de
ganhar dinheiro.
Mas o
que se
propõe como reflexão,
hoje,
é um
aspecto muito particular
desta situação em
que todos estão imersos.
É um
certo favoritismo que todos os governos do
mundo estão conferindo à indústria automobilística. As
montadoras já receberam 54
bilhões de
dólares de
auxílio.
Esse montante equivale a 36
vezes o valor
da GM nos
Estados Unidos.
Enquanto nos
Estados Unidos os empréstimos de
longo prazo são em
troca da reestruturação que elimina,
só no
caso da GM,
mais de 20 mil
vagas, no
Brasil não há compromisso formal no
sentido inverso.
Ou seja,
não prometem as
montadoras manter os empregos.
A
Europa,
mais madura e
acostumada a
vivenciar fases difíceis,
obriga em
contrapartida que a
indústria automobilística produza carros menores e
menos poluentes. No
Brasil não se
fala nisso. O
que é que se
poderia exigir às montadoras? Se
eu fosse
governo,
imporia responsabilidade ambiental muito mais consistente do
que fabricar veículos que não sejam verdadeiras máquinas de
envenenar.
Como se
faria isso?
Conferindo obrigações de
que até hoje esse privilegiado setor não enfrenta. O
intuito da montadora é multiplicar os veículos,
proceder alterações de
desempenho,
às vezes modificações minúsculas de design
que justifiquem a
compulsiva troca de
carro a
cada dois anos e a
forçar a
geração de
necessidades artificiais numa civilização tangida pelo combustível poluidor.
Agora
mesmo, as
revendas fazem shows de
ofertas,
colocam desde fantasiados a
atrair crianças e
moças bonitas agitando estandartes para chamar a
atenção de
futuros compradores. Nada contra o
lucro ou a
vontade de
faturar.
Mas em
momentos sérios,
é exigível uma responsabilidade acrescida.
Depois do
carro vendido – e
quem sai
da revenda com um
carro zero quilômetro, se voltar em seguida
já terá uma perda significativa no valor – coisas inexplicáveis em economia! – a
montadora se desinteressa do destino do seu produto.
Isso faz com que o Brasil seja o País dos desmanches. Carros velhos continuam a circular enquanto se consegue dar-lhes um sopro de vida. Paradoxalmente, quanto mais velho e poluidor, menos paga para circular. O resultado é que muitos brasileiros sem condições circulam de carro. Deixam de comprar comida, mas abastecem o veículo. E quando não podem mais, abandonam o carro em qualquer via pública, terreno baldio ou ferro-velho.
É hora de fazer a montadora se responsabilizar pelo destino de seu produto. Assim como já ocorre com outras coisas perigosas – pilhas, por exemplo – a recolha deve ser obrigação de quem produziu. Não é apenas a natureza que agradecerá. É claro que as carcaças que enfeiam tantos espaços não contribuem em nada para a qualidade de vida cidadã. Mas também se refreará um comércio que, característico de um estágio inferior de civilização, também fomenta as atividades ilícitas. O desmanche serve a estimular o furto de veículo. Há quadrilhas envolvidas nessa atividade, hoje também utilizada para fornecer ao vendedor de peças aquela que falta em seu estoque.
Se a empresa se vir obrigada a responder pelo destino de seu carro, ela é que providenciará a recolha do veículo quando inservível. Isso fará com que repense a produção. Estimulará a reciclagem. Tudo poderá ser reaproveitado, se houver uma política responsável de produção. A cidade ficará limpa. Os desmanches cederão lugar a outras atividades, assim como o grande número de pessoas que se dedicava à indústria do outdoor encontrou destino para exercer tarefas diversas e não houve qualquer drama nesse exemplo que Gilberto Kassab ofereceu a todo o mundo quando passou a governar São Paulo. Não é hora de se pensar nisso e dar mais um exemplo ao mundo?