Neste ano do
centenário da morte de
Euclides da Cunha,
muitos eventos lembram o
trágico autor de
“Os Sertões”. O
acadêmico Antonio Carlos
Secchin,
da Academia
Brasileira de
Letras, fez
uma instigante conferência no
CIEE.
Explorou uma face
insólita de
Euclides: a
incursão pela poesia.
Na verdade,
são três as faces
abordadas. A
poesia extraída nos
Sertões, a
crítica poética de
seu autor e o
poeta Euclides.
Alguém sabia que ele também poetou?
Quem lê “Os Sertões”,
talvez não tenha pressentido a
poesia com
que foi escrito.
Guilherme de
Almeida foi quem primeiro detectou essa característica na obra euclidiana.
Escreveu, em 1946, um
artigo publicado no
Diário de São Paulo,
exatamente chamado “A
poesia de
Os Sertões”.
Cinqüenta e um
anos depois,
os irmãos Campos –
Augusto e
Haroldo –
voltaram ao tema e
publicaram “Os Sertões dos Campos”.
Fizeram garimpagem no
livro e
encontraram inúmeros versos
alexandrinos. Um deles: “As
linhas essenciais do crime e
da loucura”. A
leitura que fizeram,
tem um
viés estetizante,
pois recortaram o
que é formalmente belo, com
certa descontextualização.
Quase todos os quase-versos,
ou versos
involuntários,
estão no final do
parágrafo.
É o
que simboliza uma chave de
ouro: o
arremate enfático e
caprichado,
que deve ficar soando na memória do
leitor.
Notou-se uma preferência pelos decassílabos.
Além da métrica euclidiana,
Guilherme destacou o
poder inventivo de
Euclides.
Criou,
por exemplo, o verso “A
Tróia de
taipa do
sertão” e a
figura “centauro bronco”
para o
sertanejo.
Também foi pródigo em
elaborar versos
livres com base
onomatopaica e
semeou frases-verso em
parágrafos isolados.
Produziu, com
isso,
reverberação e
impacto nessas verdadeiras ilhas de
alexandrinos ou de
decassílabos:
“Entra-se de
surpresa no
deserto”.
As
combinações métricas são de
oito e
dez,
dez e doze.
Sempre no
parâmetro tradicional da métrica portuguesa. A
pesquisa também encontrou aliterações na obra:
“Tubérculos túmidos de
seiva” e
“tiroteios durante o
dia todo”,
assim como sibilações:
“Riscando um
assovio suavíssimo como um
cio acariciador da morte”.
Conclui-se,
portanto,
que se
“Os Sertões” não é um
poema épico,
ao menos recorreu aos métodos da poesia.
Conseguiu Euclides fazer uma mixagem combinatória das agruras da prosa rude, com a
suavidade poética.
A segunda face
é a do
Euclides crítico. Pouco se dedicou a criticar poemas alheios, mas era fã de Castro Alves e prefaciou
livro de Vicente de Carvalho, a
quem auxiliou
na oportunidade de disputar
uma Cadeira
na Academia
Brasileira de
Letras. Identificava-se com Castro Alves no patriotismo,
na confiança convicta no futuro, no apreço
ao coletivo. Reviu a
obra do baiano e fez interessantes comparações entre o navio negreiro e
os transatlânticos, a cachoeira de Paulo Afonso e a utilização
da água
para produzir energia.
Na verdade, espelha-se em Castro Alves e as referências
que faz à sua
obra, servem
para qualificar o próprio
Euclides. Este mesmo confessava
que introduzia em algumas páginas de
seu caderno de matemática, versos de Castro Alves.
O prefácio do livro “Poemas e Canções”, de Vicente de Carvalho, foi um outro exercício de crítica poética de Euclides. Um terceiro texto de Euclides na crítica poética reside no seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, ocorrida em 18.12.1907. O patrono da Cadeira é Castro Alves e o antecessor é o fundador Valentim Magalhães, polígrafo e poeta. Dessa fala consta a afirmação de que “o poeta é soberano no pequeno reino onde entroniza sua poesia. Nós, os não poetas, também somos arrebatados pelo sonho. Só que ao invés de projetar a centelha criadora sobre o mundo, é o esplendor do mundo que nos invade e estimula”.
Para Secchin, Euclides da Cunha praticou verdadeiro “estouro da boiada poética”. Cometeu o ilícito conúbio entre substantivos e adjetivos que nunca se encontram. Por fim, Euclides perpetrou poemas. Escreveu 37 poemas no livro “Ondas”, no ano de 1883. Livro que só a lume em 2005, por obra do nosso querido Adelino Brandão, um dos mais devotos euclidianos que o Brasil produziu. Euclides da Cunha, autor de um livro que Secchin chama de “A Bíblia dos livros”, o “Corão”, o “Talmud”, o livro fundador da nacionalidade, não desprezou. Ao contrário, prestigiou e abraçou a poesia. Dentro de “Os Sertões” com sua prosa árida, encontra-se poesia: o sertão poético.