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Crônicas José Renato Nalini EUCLIDES DA CUNHA E A CONSTITUIÇÃO

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EUCLIDES DA CUNHA E A CONSTITUIÇÃO

Quem leu “Os Sertões” faz uma idéia da importância de Euclides da Cunha para a literatura brasileira. Também não desconhece que “Os Sertões” foram escritos em São José do Rio Pardo, enquanto o engenheiro civil Euclides construía uma ponte. Ambas as obras ficaram prontas ao mesmo tempo. Inequívoco o paralelismo entre a ponte física e a ponte intelectual, que liga a ignorância ao conhecimentoou a certa compreensão peculiar – deste fenômeno chamado Brasil.

O que as pessoas não sabem é que esse espírito inquieto se preocupou com outras coisas. Com a situação de penúria das letras brasileiras. Com a pequenez e mesquinhez de espírito da maior parte dos políticos. Ele teve de lutar pela sobrevivência de uma grande família, fazendo cálculos, estudando mapas e merecendo incompreensão generalizada. O que ele desejava era paz de espírito para ler e escrever. É o que diz a Alberto Rangel numa carta escrita em 24.10. 1908: “Demorei-me em responder-te por atender a coisas menos importantes, menos agradáveis – e mais urgentes. Toda a nossa vida é feita deste tributo permanente às frivolidades que a malignam. Gastam-se dias de agitação bárbara e inútil, para se ter uma meia hora de felicidade e paz, como esta”.
Embora engenheiro, com passagem anterior pela carreira militar, interessava-se pelo Direito. Ao agradecer o envio do livro “Constitución Argentina”, de Agustín de Vedia, diz ao autor haver detectado grande afinidade entre os modos de pensar de ambos. Para prová-lo, encaminha ao jurista argentino cópia do discurso que pronunciou para os estudantes de Direito da São Francisco, a propósito de um ex-aluno das Arcadas: o poeta Castro Alves. Ali, afirmou que pensava em Constituição como outra coisa, pois não se pode dar o nome de Constituição a ensaios efêmeros de estatutos ou regulamentos mais ou menos dispersos.

Uma Constituição é sempre resultante histórica de componentes seculares acumuladas no evoluir das idéias e dos costumes. Uma Constituição não se “faz”, mas “descobre-se”, na conciliação das novas aspirações e novos ideais, com os espaços nunca perdidos das gerações precedentes. Não considerava a Constituição Imperial de 1824 um verdadeiro pacto jurídico, histórico, social, político e econômico, assim como devem ser tais convenções fundantes da nacionalidade. Por admirar a elaboração de um ajuste básico e fundamental para se estabelecer o convívio entre pessoas civilizadas é que se identificou com o povo de São Paulo. Povo que, alguns anos depois, em 1932, pegaria em armas para defender a constitucionalização do Brasil.

Essa admiração se encontra no artigo “O Batalhão de São Paulo”, que publicou em “O Estado de São Paulo”, de 26.10.1897. Diz ele que o batalhão paulista que chegou em Canudos mereceu elogios de quantos com ele travaram contato. “Nem uma voz discordante perturbava essa manifestação absolutamente sincera e franca, que ainda perdura e persistirá por muito tempo”. Afirma que a população inteira ficou verdadeiramente surpreendida ante a entrada corretíssima de um batalhão, que acabava de realizar marcha de 16 léguas e ali chegava em forma, em ordem admirável, como se fosse tranquilamente a uma simples passeata.

Convicto de que os intrépidos soldados do Sul prosseguiam retilineamente nas empresas rudes da guerra, compartilhava da opinião do general-em-chefe que repetidas vezes afirmou a confiança inteira, absoluta, que lhe inspirava o batalhão de São Paulo: “Cada vez me agrada mais esta sua gente…”. Quais as razões para isto? Para os elogios generosos à participação paulista numa verdadeira guerra civil em Canudos?

Euclides é quem responde: “O batalhão era perfeito na disciplina. Cumpria as ordens que recebia, mas rigorosamente, estritamente, com uma precisão verdadeiramente militar, sem delas se arredar nem mesmo para se atirar à aventura mais tentadora e aparentemente da mais fácil realização.” Depois de afirmar que o elogio era “o depoimento simples e sincero de uma testemunha pouco afeiçoada à lisonja banal e inútil”, concluía não ser a primeira vez que os paulistas assim agiam. “O episódio trágico dos Palmares e a epopéia ainda não escrita dos Bandeirantes foram criados pela índole aventureira e lutadora dos sulistas ousados”.

Pena que a tradição seja tantas vezes esquecida e que São Paulo, na rabeira da política desde 1932, custe tanto a ocupar o papel de direito na União que sustenta com seu trabalho e com a dadivosa acolhida dos irmãos mais necessitados, que superlotam suas cidades.
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