Quem leu “Os Sertões” faz uma idéia da importância de
Euclides da Cunha para a
literatura brasileira.
Também não desconhece que “Os Sertões” foram escritos em São
José do Rio
Pardo,
enquanto o
engenheiro civil
Euclides construía uma ponte.
Ambas as
obras ficaram prontas ao mesmo tempo.
Inequívoco o
paralelismo entre a
ponte física e a
ponte intelectual,
que liga a
ignorância ao conhecimento –
ou a
certa compreensão peculiar –
deste fenômeno chamado Brasil.
O
que as
pessoas não sabem é que esse espírito inquieto se
preocupou com
outras coisas. Com a
situação de
penúria das letras brasileiras. Com a
pequenez e
mesquinhez de
espírito da maior parte dos
políticos.
Ele teve de
lutar pela sobrevivência de
uma grande família,
fazendo cálculos,
estudando mapas e
merecendo incompreensão generalizada. O
que ele desejava era
paz de
espírito para ler e
escrever.
É o
que diz a Alberto Rangel
numa carta escrita em 24.10. 1908:
“Demorei-me em
responder-te por atender a
coisas menos importantes,
menos agradáveis – e
mais urgentes.
Toda a
nossa vida é feita deste tributo permanente às frivolidades que a
malignam.
Gastam-se dias de
agitação bárbara e
inútil,
para se
ter uma meia hora de
felicidade e
paz,
como esta”.
Embora engenheiro, com
passagem anterior
pela carreira militar,
interessava-se pelo Direito.
Ao agradecer o
envio do
livro “Constitución Argentina”, de
Agustín de
Vedia,
diz ao autor haver detectado grande afinidade entre os modos de
pensar de
ambos. Para
prová-lo,
encaminha ao jurista argentino cópia do
discurso que pronunciou para os estudantes de
Direito da São Francisco, a
propósito de um
ex-aluno das Arcadas: o
poeta Castro
Alves. Ali,
afirmou que já pensava em
Constituição como outra coisa,
pois não se
pode dar o
nome de
Constituição a
ensaios efêmeros de
estatutos ou regulamentos mais ou menos dispersos.
Uma Constituição é sempre resultante histórica de
componentes seculares acumuladas no
evoluir das idéias e dos costumes.
Uma Constituição não se
“faz”,
mas “descobre-se”,
na conciliação das novas
aspirações e
novos ideais, com
os espaços nunca perdidos das gerações precedentes.
Não considerava a
Constituição Imperial de 1824 um
verdadeiro pacto jurídico,
histórico, social,
político e
econômico,
assim como devem ser tais convenções fundantes da nacionalidade.
Por admirar a
elaboração de um
ajuste básico e fundamental
para se
estabelecer o
convívio entre pessoas civilizadas é que se
identificou com o
povo de São Paulo.
Povo que,
alguns anos depois, em 1932,
pegaria em
armas para defender a
constitucionalização do
Brasil.
Essa admiração
já se encontra no artigo “O Batalhão de São Paulo”,
que publicou em “O Estado de São Paulo”, de 26.10.1897. Diz
ele que o batalhão paulista
que chegou em Canudos mereceu elogios de quantos com
ele travaram contato. “Nem
uma voz discordante perturbava essa manifestação absolutamente sincera e franca,
que ainda perdura e persistirá
por muito tempo”. Afirma
que a população inteira ficou verdadeiramente surpreendida ante a entrada corretíssima de um batalhão,
que acabava de realizar marcha de 16 léguas e ali chegava em forma, em ordem admirável,
como se fosse tranquilamente a
uma simples passeata.
Convicto de
que os intrépidos soldados do Sul prosseguiam retilineamente nas empresas rudes
da guerra, compartilhava
da opinião do general-em-chefe
que repetidas vezes
afirmou a confiança inteira, absoluta,
que lhe inspirava o batalhão de São Paulo: “Cada vez me agrada
mais esta sua gente…”. Quais as razões
para isto? Para
os elogios generosos à participação paulista
numa verdadeira guerra civil em Canudos?
Euclides é quem responde: “O batalhão era perfeito na disciplina. Cumpria as ordens que recebia, mas rigorosamente, estritamente, com uma precisão verdadeiramente militar, sem delas se arredar nem mesmo para se atirar à aventura mais tentadora e aparentemente da mais fácil realização.” Depois de afirmar que o elogio era “o depoimento simples e sincero de uma testemunha pouco afeiçoada à lisonja banal e inútil”, concluía não ser a primeira vez que os paulistas assim agiam. “O episódio trágico dos Palmares e a epopéia ainda não escrita dos Bandeirantes foram criados pela índole aventureira e lutadora dos sulistas ousados”.
Pena que a tradição seja tantas vezes esquecida e que São Paulo, na rabeira da política desde 1932, custe tanto a ocupar o papel de direito na União que sustenta com seu trabalho e com a dadivosa acolhida dos irmãos mais necessitados, que superlotam suas cidades.