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Crônicas José Renato Nalini MEU PAI, EUCLIDES DA CUNHA

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MEU PAI, EUCLIDES DA CUNHA

Dois mil e nove marca o centenário da morte de Euclides da Cunha. O autor de “Os Sertões” foi alvo de estudos densos, profundos e completos. A cada vez que seu nome é mencionado, lembro-me do verdadeiro culto a ele devotado por Adelino Brandão, uma saudade perene entre os amigos e a presença forte no mundo da cultura literária.

Quase tudo se falou sobre Euclides. Para homenageá-lo, penso que seria interessante breve reflexão sobre seu papel de pai. Genitor de uma considerável prole, pouco se dedicam os euclidianistas a abordar sua conduta paterna. Um ponto de pesquisa seria a leitura de suas cartas. um epistolário euclidiano que não cessa de crescer. A primeira carta dirigida a seu filho Euclides Júnior, internado num colégio, é de 19.3.1908. Nela, o pai diz ter ficado contente com o propósito do filho ser bom, obediente e estudioso.

Depois de se confessar ansioso por saber o resultado dos exames, é direto: “Achei a tua letra pior do que no ano passado. , por , o que são dois meses de vadiação. Eu espero, porém, que doravante terás mais juízo, para tua e nossa felicidade. deves estar convencido que nenhum lucro em ser-se mau ou descuidado nos deveres. E como és inteligente, trata de ser bom, aplicado e limpo para seres verdadeiramente feliz.

Confiamos todos no teu coração, certos de que não nos farás sofrer e que cumprirás a tua promessa de um ano mais bem aproveitado. Assim também terás férias melhores e mais alegres”.

Ao receber notícia de que o filho fora bem nos exames, logo responde e confessa “verdadeira felicidade”. E acrescenta: “Agora não deves parar mais. Prossegue com abnegação. Para isto não precisas sacrificar-te. Basta que tenhas constância e método, que estudes nas horas de estudo e prestes toda a atenção nas aulas. Assim, ainda terás muito tempo para brincares e chegarás ao fim do ano com toda matéria sabida. Mas não te desvies nunca deste programa: nem um dia sem estudar! Um pouco por dia quer dizer muitíssimo por ano. A par disto não te esqueças nunca do respeito que deves aos mestres e da lealdade que deves aos teus companheiros. Assim serás um homem e terás sempre ao teu lado como o teu maior amigo teu pai”.

Nem sempre os conselhos calam fundo, contudo. Em 12 de junho de 1908, novamente se dirige ao filho, a quem chama – carinhosamente – de Quidinho: “Desejo-te felicidades e, sobretudo, que continues bem disposto a andar direitinho nos teus atos. Infelizmente ainda não tenho boas informações a teu respeito. Mas confio na tua nobreza de sentir, convencido de que farás tudo quanto puderes para não me dares desgostos. Notei que não estás na lista dos que obtiveram o banco de honra. Não importa! Continua a estudar com vontade e constância que obterás o prêmio merecido. Arma-te de boa vontade para atravessares corretamente este ano; para saíres aprovado em dezembro de modo que possas divertir-te bem durante as férias”.

No mesmo ano, agora em 13 de agosto, lamenta não poder visitar os filhos internados: Euclides Júnior, o “Quidinho”, e Solon, que leva o nome do avô materno. E diz: “Se eu fosse até aí entre outras coisas te diria o seguinte: Quero que respeites mais aos teus mestres – porque eles, aí, me representam; de sorte que não tens de envergonhar-te das repreensões que eles te dirijam. É um engano imaginares que a insubmissão seja própria de um homem verdadeiramente altivo. O homem verdadeiramente altivo é o que evita ver-se na posição de merecer uma censura. É o que deves não esquecer. E, dada a infelicidade de um erro, de que não estás livre, mesmo em virtude da tua idade, deves submeter-te às suas conseqüências. Sem esta resignação superior nunca serás um homem útil. Mas eu sei que és bastante inteligente para veres e avaliares o valor do que estou dizendo-te; e que farás o que em ti couber para satisfazer a minha vontade. Dentro de três meses estarás em férias e se andares direitinho não te faltarão aqui divertimentos que compensem os teus trabalhos. Estuda, pois; esquece ressentimentos sem base; respeita aos teus mestres; estima aos teus companheiros – de modo que sejas verdadeiramente digno do amor de tua mãe e de um abraço do teu pai”.

Um último cartão postal foi recolhido para o epistolário de Euclides da Cunha, coletado por Francisco Venâncio Filho. É de 1908, sem data. Dirigido a Euclides da Cunha Filho quando ele cursava o Colégio Anchieta, em Friburgo. Diz: “Recebi as notas pelas quais vejo que estás ‘tenente’ em português e ‘coronel’ em latim. Ficaria mais contente se se trocassem os títulos. Em todo o caso vejo que não estás perdendo o tempo. Continua. Até ao fim do ano ainda podes fazer muito. Sobretudo deves comportar-te bem. E a nossa velha aritmética? Nem um posto? Nem mesmo o de alferes? Todos bons. Abraço-te. Euclides”.
Logo no ano seguinte, Euclides da Cunha Filho matriculou-se na Escola Naval. Quando aspirante, foi assassinado pelo mesmo autor do homicídio de seu pai. Isso aconteceu em 4 de julho de 1916.
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