Dois mil e
nove marca o
centenário da morte de
Euclides da Cunha. O
autor de
“Os Sertões” foi alvo de
estudos densos,
profundos e
completos. A
cada vez que seu nome é mencionado,
lembro-me do
verdadeiro culto a
ele devotado por Adelino Brandão,
uma saudade perene entre os amigos e a
presença forte no
mundo da cultura literária.
Quase tudo já se
falou sobre Euclides. Para
homenageá-lo,
penso que seria interessante breve reflexão sobre seu papel de
pai. Genitor de
uma considerável prole,
pouco se
dedicam os euclidianistas a
abordar sua conduta paterna. Um
ponto de
pesquisa seria a
leitura de
suas cartas.
Há um
epistolário euclidiano que não cessa de
crescer. A
primeira carta dirigida a
seu filho Euclides Júnior,
internado num colégio,
é de 19.3.1908.
Nela, o
pai diz ter ficado contente com o
propósito do
filho ser bom,
obediente e
estudioso.
Depois de se
confessar ansioso por saber o
resultado dos
exames,
é direto:
“Achei a
tua letra pior do
que no
ano passado.
Vê,
por aí, o
que são dois meses de
vadiação.
Eu espero,
porém,
que doravante terás mais juízo,
para tua e
nossa felicidade.
Já deves estar convencido que nenhum lucro há em
ser-se mau ou descuidado nos
deveres. E
como és inteligente,
trata de
ser bom,
aplicado e
limpo para seres verdadeiramente feliz.
Confiamos todos no
teu coração,
certos de
que não nos
farás sofrer e
que cumprirás a
tua promessa de um
ano mais bem aproveitado.
Assim também terás férias melhores e
mais alegres”.
Ao receber notícia de
que o
filho fora
bem nos
exames, logo responde e confessa “verdadeira felicidade”. E acrescenta: “Agora
não deves parar
mais. Prossegue com abnegação. Para isto
não precisas sacrificar-te. Basta
que tenhas constância e método,
que estudes nas horas de estudo e prestes toda a atenção nas aulas.
Assim, ainda
terás muito tempo
para brincares e chegarás ao fim do
ano com toda matéria sabida. Mas
não te desvies nunca deste programa: nem um dia sem estudar! Um
pouco por dia quer dizer muitíssimo
por ano. A par disto
não te esqueças nunca do respeito
que deves aos mestres e
da lealdade
que deves aos teus companheiros.
Assim serás um homem e
terás sempre ao
teu lado
como o
teu maior amigo
teu pai”.
Nem sempre
os conselhos calam fundo, contudo. Em 12 de junho de 1908, novamente se dirige ao
filho, a quem chama – carinhosamente – de Quidinho: “Desejo-te felicidades e, sobretudo,
que continues
bem disposto a andar direitinho nos teus atos. Infelizmente ainda
não tenho boas informações a
teu respeito. Mas confio na
tua nobreza de sentir,
convencido de
que farás tudo quanto puderes
para não me dares desgostos. Notei
que não estás na lista dos
que obtiveram o banco de honra. Não importa! Continua a estudar com vontade e constância
que obterás o prêmio merecido. Arma-te de boa vontade
para atravessares corretamente este
ano;
para saíres aprovado em dezembro de modo
que possas divertir-te
bem durante as férias”.
No mesmo ano, agora em 13 de agosto, lamenta não poder visitar os filhos internados: Euclides Júnior, o “Quidinho”, e Solon, que leva o nome do avô materno. E diz: “Se eu fosse até aí entre outras coisas te diria o seguinte: Quero que respeites mais aos teus mestres – porque eles, aí, me representam; de sorte que não tens de envergonhar-te das repreensões que eles te dirijam. É um engano imaginares que a insubmissão seja própria de um homem verdadeiramente altivo. O homem verdadeiramente altivo é o que evita ver-se na posição de merecer uma censura. É o que deves não esquecer. E, dada a infelicidade de um erro, de que não estás livre, mesmo em virtude da tua idade, deves submeter-te às suas conseqüências. Sem esta resignação superior nunca serás um homem útil. Mas eu sei que és bastante inteligente para veres e avaliares o valor do que estou dizendo-te; e que farás o que em ti couber para satisfazer a minha vontade. Dentro de três meses estarás em férias e se andares direitinho não te faltarão aqui divertimentos que compensem os teus trabalhos. Estuda, pois; esquece ressentimentos sem base; respeita aos teus mestres; estima aos teus companheiros – de modo que sejas verdadeiramente digno do amor de tua mãe e de um abraço do teu pai”.
Um último cartão postal foi recolhido para o epistolário de Euclides da Cunha, coletado por Francisco Venâncio Filho. É de 1908, sem data. Dirigido a Euclides da Cunha Filho quando ele cursava o Colégio Anchieta, em Friburgo. Diz: “Recebi as notas pelas quais vejo que estás ‘tenente’ em português e ‘coronel’ em latim. Ficaria mais contente se se trocassem os títulos. Em todo o caso vejo que não estás perdendo o tempo. Continua. Até ao fim do ano ainda podes fazer muito. Sobretudo deves comportar-te bem. E a nossa velha aritmética? Nem um posto? Nem mesmo o de alferes? Todos bons. Abraço-te. Euclides”.
Logo no ano seguinte, Euclides da Cunha Filho matriculou-se na Escola Naval. Quando aspirante, foi assassinado pelo mesmo autor do homicídio de seu pai. Isso aconteceu em 4 de julho de 1916.