Se Cristo
não ressuscitou,
é vã minha fé,
proclamou São Paulo. E
isso continua a
valer. O
Cristianismo repousa na certeza de
que Jesus
ressurgiu dos
mortos.
Quem não aceita isso não é cristão.
Não basta uma “simpatia” pelos princípios cristãos.
É óbvio que alguns deles
ganham universalidade. A
igualdade entre as
pessoas. O
cristão não tem outra opção, salvo
considerar cada pessoa um
irmão.
Todos são igualmente filhos de Deus. A
fraternidade é conseqüência disso.
Daí a
revolução que foi o
advento dessa verdade e a
razão política do
combate aos primeiros cristãos.
Não é preciso ser crente para reconhecer a
dignidade humana.
Pelo mero fato de
alguém nascer dentro desta espécie,
inegável a
titularidade da condição a
todos atribuível.
Ninguém desmerece a
categoria da dignidade humana.
Mesmo aqueles que praticam atos ignóbeis, a
mostrar a
fragilidade da matéria-prima com
que todos somos fabricados. O
cristão,
todavia,
tem outras obrigações.
Além de se
submeter à ordem temporal –
pois a
Constituição da República enfatiza esse supra-princípio da dignidade da pessoa humana –
ele deve se
curvar ao mandamento de
mais difícil observância.
É o
“amar ao próximo como a
si mesmo”.
Pode parecer piada falar em “amor
ao próximo”,
numa sociedade egoísta e
hedonista, em
que a
regra é “puxar o
tapete do
outro”. A
egolatria é a
característica mais evidente em
todos os espaços. A
competição, o
consumismo, o
próprio interesse em
primeiro lugar,
tudo isso predomina no
mundo que ainda se
auto-denomina “cristão”,
mas que não seria identificado assim por alguém que pudesse aferir a
qualidade de
sua conduta.
Quem é capaz de
amar ao próximo incondicionalmente?
Quem é que suporta o
mau caráter, o
chato, o
contaminado, o
drogado, o
preso, o
excluído?
Quem consegue distinguir a
essência humana naquela carcaça de
quem escapa aos nossos padrões?
Já houve tempo,
dizem os Evangelhos, em
que os cristãos eram identificados porque se
amavam.
“Vede como se
amam!”.
Houve quem conseguisse assimilar a
regra e
vivê-la.
Missão difícil,
espinhosa,
árdua,
extenuante.
Mas não impossível.
Lembro-me,
cada vez com
freqüência maior,
das lições do
nosso santinho Dom Gabriel.
Há quatro esferas de
relacionamento que as
pessoas precisam levar a
sério.
Primeiro,
é preciso conhecer-se.
Quantos há que não se
conhecem? A
vida impõe seu ritmo e a
criatura, em
lugar de se
auto-determinar, de
guiar-se pelo livre arbítrio,
parece plugada a
uma força que a
impulsiona sem qualquer participação própria.
Robotizada,
caminha de forma
insensata e
sequer sabe quem é.
Sem se
conhecer,
ninguém pode ter auto-estima. E
quem não tem auto-estima,
também não sabe amar.
A
segunda esfera, a
mais difícil,
é a do amor
ao próximo.
Só depois de se
conhecer intimamente é que alguém estará aberto para o amor. As
duas outras esferas são o
relacionamento com a
natureza e,
finalmente, com Deus.
Duas grandes dificuldades. A
pouca gente ocorre que a
insanidade está a
comprometer a
existência de
vida no
planeta.
O
desmatamento, a
poluição sob
todas as
formas, a
produção excessiva de
lixo, a
contaminação do solo,
da água e do
ar está a
envenenar este ser de
vida efêmera que é chamado homem.Quem
não se
respeita,
não consegue conviver e
maltrata a
natureza,
também não chega a
mergulhar no
mistério divino.
Essa a
verdadeira crise da humanidade após tantos milênios e no
século XXI do
nascimento Daquele que ressuscitou.
Pois se
ele não ressuscitou,
todo o
cristianismo pode ser abandonado.
Noto certa dificuldade de
alguns círculos em acreditar nessa
verdade.
Há uma arrogância, aliada
à ignorância e preguiça em se aprofundar, quando muitos preferem acreditar
numa “energia”,
numa “força” ou em algo indeterminado
que responderia às perguntas irrespondíveis. Isso
não preenche a necessidade de verdadeira
fé.
A mim não me basta a sensação de que “algo existe”. Continuo a crer que Deus se encarnou, viveu, sofreu, foi morto… mas ressuscitou. Isso é o que me dá esperança de conservar a individualidade e de um dia rever as pessoas amadas numa outra esfera. Por isso é que a ressurreição adquire um significado profundo e deveria servir para uma séria reflexão a respeito das questões cruciais: por que nasci, o que estou fazendo aqui, para onde vou depois da morte? São as perguntas que pouca gente se faz e que grande parte daqueles que ousam fazê-lo, não encontram resposta, porque lhes falta a graça da crença. Boa Páscoa da Ressurreição para todos!