Get Adobe Flash player
Crônicas José Renato Nalini VOCÊ PODE ARCAR?

Academicos atuais

Aguarde...

Acadêmicos anteriores

Aguarde...

Online

Nós temos 9 visitantes online

VOCÊ PODE ARCAR?

A necessidade de fazer um pouco de exercício me leva a permanecer numa esteira durante trinta minutos. É o período em que assisto na TV a programas que talvez não pudesse acompanhar em outros horários. Com isso, vejo com freqüência a desenvoltura de Oprah Winfrey, uma das comunicadoras mais prestigiadas dos Estados Unidos, em sua aparição diária. Por ser inteligente e estar num nível privilegiado, pode desenvolver um outro tipo de comunicação.

O entretenimento mais direto e singelo é substituído por algo que surte efeito e auxilia uma comunidade difusa de telespectadores. O nome deste artigo é uma experiência destas. Oprah contacta uma administradora econômica doméstica para opinar sobre questões concretas de algumas famílias. Todos temos sonhos, ambições, aspirações. É assim que a vida funciona e nisso encontramos força para prosseguir, a despeito das vicissitudes. Mas é preciso indagar se os nossos sonhos cabem dentro de nossas reais possibilidades.

“Você pode arcar?” é a pergunta que se faz no programa. O primeiro caso era o de um pai que queria propiciar às duas filhas o acesso à Universidade. Nos Estados Unidos isso é muito caro. Chegaria a 160 mil dólares por filha. Na modesta economia de quem ganha 4 mil dólares por mês e gasta 3,8 deles, como arcar com o dispêndio?

O pai queria um empréstimo. Mas a economista provou que ele – com mais de 50 anosteria de passar mais de 30 anos para pagar o estudo de uma das filhas. Indagadas a respeito do sacrifício, mãe e filhas desistiram do projeto de empréstimo. Para decepção do pai. Mas foi acertado. E a economista ainda argumentou que nem sempre estudar nas Universidades mais caras garante êxito na vida. Deu o seu próprio exemplo de que o importante é ser feliz e fazer o que gosta.

Outro exemplo era o de uma jovem que pretendia oferecer uma festa de casamento para 200 pessoas e seu noivo preferia um churrasco no quintal. Para o primeiro plano, seria necessário o dispêndio de 50 mil dólares. Para o segundo, 5 mil dólares.

A partir da economia dos noivos, a economista provou que era inviável a festa. A moça devia 16 mil dólares no cartão. Mais 28 mil dólares de crédito educativo. nos Estados Unidos, não perdão para quem se utiliza do similar de ProUni como aqui. Inviável uma festa para quem está a dever. Como é totalmente desarrazoado continuar a gastar quando se está sem emprego. Falta juízo a muito adulto que não se precavê, não está preparado para as intempéries das quais ninguém está liberado. Um programa assim faz bastante gente pensar se não está na mesma situação.

Uma terceira situação era a do casal que depois de 12 anos de casamento, percebeu que já não existia amor. Com três filhos, uma delas portadora da síndrome de Down, e muitos quilos depois, a mulher descobriu que não tinha tempo nem para si mesma, menos ainda para o marido. Administrar os filhos tomava todo o seu tempo e sua mente.

Separaram-se de fato. Ele passou a dormir no escritório e ela permaneceu no quarto da família. E para separar, não havia dinheiro. Ele ficou desempregado. A entrada mensal que era equivalente a 6 mil dólares, passou a 1,5 mil dólares, porque ela vendia cosméticos. Levaram o seu problema à Oprah que o submeteu à economista. Aparentemente insolúvel o dilema de ambos. Permaneciam juntos porque inviável a cada qual manter-se isoladamente com a evidente insuficiência de recursos financeiros. O que fazer?

A solução provisória a que chegaram foi a opção pela venda da casa, liquidação da hipoteca e, com o produto, aluguel de dois apartamentos menores. Não gostei dessa alternativa e penso que não dará certo. Mas o importante foi trazer a questão a debate. Vale a pena permanecer juntos, a habitar a mesma casa, se já não se vive um casamento?
O que é pior para as crianças: os pais fisicamente juntos, mas não se suportando, ou separados e tentando reconstruir sua vida? Não há solução fácil, nem ideal. Mas são problemas concretos que devem ser enfrentados a partir dessa constatação de que a vida impõe desafios. Uma sociedade inspirada no consumismo não sabe viver sem dinheiro. Não existem planos alternativos para quem necessita de recursos para fazer face às suas necessidades. Muita gente precisa se auto-indagar se haverá condições de arcar com os projetos ou se está arriscada a mergulhar na inadimplência, tantas vezes sintoma de irresponsabilidade ou, mesmo, de falta de caráter.
Banner