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Crônicas José Renato Nalini QUANTOS ANIVERSÁRIOS AINDA FARÁ?

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QUANTOS ANIVERSÁRIOS AINDA FARÁ?

A mídia global noticiou com certo alarde a festa de aniversário de Robert Mugabe, presidente do Zimbábue. Ao completar 85 anos, ele ordenou que a comemoração fosse inesquecível. Não foi necessária muita habilidade para persuadir as moscas que circulam o poder em todas as esferas neste triste planeta. Os áulicos providenciaram toda a pompa e circunstância para essa festa inesquecível.

Assim é que membros do partido governista ZANU-PF, pediram doações a empresas e partidários, com a preocupação de bajular o homem que, com mão-de-ferro, comanda o País mais de vinte anos. É o que noticiaram os jornais The Times, de Londres, e El País, de Madri. Isso costuma acontecer em todo o mundo, com maior ou menor desenvoltura. Basta que alguém possua algum resquício de poder e surgem as táticas das homenagens. Antes mesmo de se produzir algo em favor da comunidade, os interessados em agradar “quem está por cima” começam a reverenciar o poderoso.

A vaidade retroalimenta essa praxe. A falsa modéstia não é suficiente a reprimir o cordão do servilismo. Quem é que não gosta de agrado? E de tanto agradar, até as homenagens que poderiam servir de estímulo às boas práticas passam a representar banalidades melancólicas. Se todos são homenageados, como distinguir aquilo que de fato é merecedor de encômios e aquilo que resulta de interesse mesquinho de quem promove a festa?

Mas o chocante, em relação a Mugabe, é a lista de pedidos aos que patrocinaram a comemoração de seu aniversário. Todos sabem que o Zimbábue é um País paupérrimo. Quase 90% de sua população passa fome. Morre-se de fome e não de maneira figurada. Os habitantes não têm dinheiro para comprar um pedaço de pão. A ajuda humanitária é proibida de chegar ao solo zimbabuano. Parece que os detentores do poder querem mesmo extinguir a população local para depois lotear a terra para quem puder ali construir spas ou resorts destinados aos ricos do planeta.

Entre os itens pedidos aos “amigos de Mugabe”, figuraram: 1 milgarrafas de champanhe Moët & Chandon, 8 mil lagostas, 4 mil porções de caviar, 100 quilos de camarões pistola, 8 mil caixas de bombons Ferrero Rocher, 16 mil ovos, 3 mil patos. E por vai. engulho repetir o que se solicitou aos que tiram vantagem dessa ditadura cruel.

Não era necessário contribuir em espécie. Para quem considerasse mais fácil, a oferta poderia ser em dólar. que a partir de 45 mil dólares. A conta bancária figura no pedido de contribuição. É uma conta do Movimento 21 de Fevereiro, organização de jovens controlada pelo ZANU-PF, cujo nome é exatamente a data de nascimento de Mugabe.

A imprensa do mundo civilizado chamou de surrealista essa postura de um partido no governo, diante da realidade do País: 94% da população está desempregada e a inflação atinge o índice recorde de 231.000.000%. É isso mesmo: 231.000.000%, não está sobrando zero, não!

A escassez de alimentos reduz a população com ritmo tão alucinante quanto a volúpia do ditador. De acordo com dados da ONU, 7 milhões de zimbabuanos necessitam de ajuda humanitária urgente para sobreviver à fome. Além da crise econômica, o Zimbábue também luta contra uma epidemia de cólera que já matou mais de 3 mil pessoas e infectou outras 60 mil.

Não é só. Morre-se de aids, de tuberculose, que é uma doença que ainda mata, pois a baixa imunidade dos soropositivos é um chamamento a essa fraqueza dos pulmões. Toda a seqüela de males que acompanha a miséria está presente no Zimbábue, cujo presidente quis festejar de maneira imperial os seus 85 aninhos.

A imprensa não publicou fotos da festa. Nem as revistas de frivolidades tiveram coragem de estampar o festival de desperdício, injúria grave para os miseráveis que sequer tiveram direito às migalhas do banquete presidencial.

Mas noticiou-se que um acidente entre um caminhão e o carro em que viajava Morgan Tsvangirai, o Primeiro-Ministro do Zimbábue e adversário do Presidente, mandou a autoridade para o hospital e sua mulher para o cemitério. Susan era a esposa de Morgan há 31 anos e mãe de seus seis filhos.

Há dúvidas sobre a causa do acidente, embora Wayne Bvudzijena, porta-voz da polícia, tenha afirmado à TV estatal que o carro que transportava os Tsvangirai pertencia a seu partido, o Movimento pela Mudança Democrática e era dirigido por um motorista particular. Porque há sempre dúvidas sobre o destino daqueles que ousam contrariar o todo-poderoso Robert Mugabe. Quantos anos mais ele comemorará? Haverá o que festejar nesse finalzinho de existência? Com que créditos se apresentará ao magistrado do Juízo Final?
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