A
mídia global
noticiou com
certo alarde a
festa de
aniversário de Robert
Mugabe,
presidente do
Zimbábue.
Ao completar 85
anos,
ele ordenou que a
comemoração fosse
inesquecível.
Não foi necessária muita habilidade para persuadir as
moscas que circulam o
poder em
todas as
esferas neste triste planeta.
Os áulicos providenciaram toda a
pompa e
circunstância para essa festa inesquecível.
Assim é que membros do
partido governista ZANU-PF,
pediram doações a
empresas e
partidários, com a
preocupação de
bajular o
homem que, com
mão-de-ferro,
comanda o
País há mais de
vinte anos.
É o
que noticiaram os jornais The Times, de
Londres, e El
País, de
Madri.
Isso costuma acontecer em
todo o
mundo, com
maior ou menor desenvoltura.
Basta que alguém possua algum resquício de
poder e
surgem as
táticas das homenagens. Antes
mesmo de se
produzir algo em favor
da comunidade,
os interessados em
agradar “quem está por cima” começam a
reverenciar o
poderoso.
A
vaidade retroalimenta essa praxe. A
falsa modéstia não é suficiente a
reprimir o
cordão do
servilismo.
Quem é que não gosta de
agrado? E de
tanto agradar,
até as
homenagens que poderiam servir de
estímulo às boas
práticas passam a
representar banalidades melancólicas. Se
todos são homenageados,
como distinguir aquilo que de
fato é merecedor de
encômios e
aquilo que resulta de
interesse mesquinho de
quem promove a
festa?
Mas o
chocante, em
relação a
Mugabe,
é a
lista de
pedidos aos que patrocinaram a
comemoração de
seu aniversário.
Todos sabem que o
Zimbábue é um
País paupérrimo.
Quase 90% de
sua população passa fome.
Morre-se de
fome e
não de
maneira figurada.
Os habitantes não têm dinheiro para comprar um
pedaço de
pão. A
ajuda humanitária é proibida de
chegar ao solo
zimbabuano.
Parece que os detentores do
poder querem mesmo extinguir a
população local
para depois lotear a terra
para quem puder ali construir spas
ou resorts
destinados aos ricos do
planeta.
Entre os itens pedidos aos “amigos de
Mugabe”,
figuraram: 1
milgarrafas de
champanhe Moët &
Chandon, 8 mil
lagostas, 4 mil
porções de caviar, 100
quilos de
camarões pistola, 8 mil
caixas de
bombons Ferrero Rocher, 16 mil
ovos, 3 mil
patos. E
por aí vai.
Dá engulho repetir o
que se
solicitou aos que tiram vantagem dessa ditadura cruel.
Não era
necessário contribuir em
espécie. Para
quem considerasse mais fácil, a
oferta poderia ser em
dólar.
Só que a
partir de 45 mil
dólares. A
conta bancária já figura no
pedido de
contribuição.
É uma conta do
Movimento 21 de
Fevereiro,
organização de
jovens controlada pelo ZANU-PF,
cujo nome é exatamente a data de
nascimento de
Mugabe.
A imprensa do mundo civilizado chamou de surrealista essa postura de um partido no governo, diante da realidade do País: 94% da população está desempregada e a inflação atinge o índice recorde de 231.000.000%. É isso mesmo: 231.000.000%, não está sobrando zero, não!
A escassez de alimentos reduz a população com ritmo tão alucinante quanto a volúpia do ditador. De acordo com dados da ONU, 7 milhões de zimbabuanos necessitam de ajuda humanitária urgente para sobreviver à fome. Além da crise econômica, o Zimbábue também luta contra uma epidemia de cólera que já matou mais de 3 mil pessoas e infectou outras 60 mil.
Não é só. Morre-se de aids, de tuberculose, que é uma doença que ainda mata, pois a baixa imunidade dos soropositivos é um chamamento a essa fraqueza dos pulmões. Toda a seqüela de males que acompanha a miséria está presente no Zimbábue, cujo presidente quis festejar de maneira imperial os seus 85 aninhos.
A imprensa não publicou fotos da festa. Nem as revistas de frivolidades tiveram coragem de estampar o festival de desperdício, injúria grave para os miseráveis que sequer tiveram direito às migalhas do banquete presidencial.
Mas noticiou-se que um acidente entre um caminhão e o carro em que viajava Morgan Tsvangirai, o Primeiro-Ministro do Zimbábue e adversário do Presidente, mandou a autoridade para o hospital e sua mulher para o cemitério. Susan era a esposa de Morgan há 31 anos e mãe de seus seis filhos.
Há dúvidas sobre a causa do acidente, embora Wayne Bvudzijena, porta-voz da polícia, tenha afirmado à TV estatal que o carro que transportava os Tsvangirai pertencia a seu partido, o Movimento pela Mudança Democrática e era dirigido por um motorista particular. Porque há sempre dúvidas sobre o destino daqueles que ousam contrariar o todo-poderoso Robert Mugabe. Quantos anos mais ele comemorará? Haverá o que festejar nesse finalzinho de existência? Com que créditos se apresentará ao magistrado do Juízo Final?