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Crônicas José Renato Nalini A FÁBRICA DE VIÚVAS

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A FÁBRICA DE VIÚVAS

Assim é que os médicos americanos chamam a aorta, aquela artéria que tem o péssimo hábito de entupir e de matar. Os homens são as principais vítimas. As razões são conhecidas: fumo, sedentarismo, angústia, preocupação, estresse. para evitar as pré-condições para essa fatalidade cardíaca? Ao menos as duas primeiras são evitáveis.
Fumar é vício que mata. Todos sabem disso. Por que falta às pessoas força de vontade para abandoná-lo? É incrível como se propagou a notícia de que fumar acaba com os alvéolos pulmonares, causa hipertensão, envenena o sangue, rouba alguns anos de vida ao fumante. Mesmo assim, ele continua a fumar. tentei com filhos fumantes levá-los assistir a agonia de fumantes. Vi a morte de alguns amigos, atormentados pela falta de ar. Não tubo de oxigênio que supra o suplício da dificuldade respiratória. A morte é dolorida para quem morre. Dolorosa para quem assiste. A impotência de ambos os lados deprime.
Constata-se a fragilidade dessa criatura que não consegue dizer “não” a alguma coisa que a envenena. Muito triste. Tenho uma amiga que comprou capa onde guarda seu maço de cigarro, para não se defrontar com aquelas cenas macabras que o Ministério da Saúde obrigou fossem estampadas. “Fumar câncer”. “Fumar causa impotência”. “Fuma gera hipertensão”. De que adianta tudo isso, se falta aquela coisinha tão trivial chamada “vergonha na cara?”.

Outra coisa que pode ajudar a prolongar a vida é fazer exercício físico. Verdade que não é suficiente exercitar o corpo sem controlar o que se coloca dentro dele. O brasileiro come relativamente bem, considerados os hábitos nutricionais do norte-americano. A juventude obesa se entope de bacon, sanduíches com pasta de amendoim e toma refrigeranteaquele que é típico deles – como se fosse água.

Caminhar todos os dias faz com que as artérias permaneçam flexíveis. Equilibra a pressão. Facilita a respiração. Não é fácil tirar aquela gordura do abdômen, causa principal de problemas cardíacos. Depois que se adquire, ela custa a ir embora. Para alguns, nunca mais. É necessária a cirurgia para redução de estômago ou até a lipoaspiração. Mas o exercício se faz para preservar a qualidade de vida. Não é a fórmula para esculpir o físico, até se aproxime do ideal do “super-homem”. Quem caminha prolonga a sua vida e esse o exercício mais fácil, mais barato, mais disponibilizado e acessível a qualquer pessoa.

Duas das causas da morte cardíaca têm o seu combate ao alcance de todos. É claro que as outras se condicionam a uma série de circunstâncias muito mais complexas.Quem é que consegue se livrar da angústia? A condição humana é a de uma criatura miserável. Não quer pensar nisso, mas sabe que vai morrer. Não sabe quando, o que é bom. O que seria de cada um de nós se soubesse o momento exato em que deixará tudo para trás? Nós que somos tão pretensiosos, arrogantes e … tolos!

Pensamos que vamos viver eternamente. Por isso adiamos o que é essencial. Fazer as pazes com quem brigamos. Falar aquela palavra de estímulo, de carinho e de ternura para quem depende dela. Sempre achamos que haverá tempo e, quando vemos, a vida já passou. Ela é cada vez mais breve.

Quanto tempo perdido no egoísmo. Na consecução de bens da vida materiais. Aqueles que deixaremos tudo aqui. O povo é sábio quando diz que “caixão não tem gaveta”. Ninguém leva nada do que acumulou. Deixa para a família brigar. Ou dilapidar. Ou manter a servidão de juntar mais e mais. A humanidade se esquece do principal. O ser humano não se satisfaz com a riqueza. Mesmo os ricos, querem cada vez mais. A cada passo adiante, surge um novo objetivo. A insatisfação é a regra.

As lições mais singelas são esquecidas. Quem é que se detém a pensar naquela parábola do rico? Ele morre e vê que nenhum dos valores aos quais se devotou em vida tem relevância na eternidade. Quer voltar para avisar sua família de que é tempo de conversão. E é advertido: – “Se eles não acreditam nos profetas, por que acreditariam na visão de um morto?”. Se a humanidade conseguisse cultivar um pouquinho só, não muito, o ideal da ascese, ela também se livraria da morte precoce. E do tormento que é partir para quem edificou tudo aqui e de forma a não poder levar quando se defrontar com a ceifadeira. Desprezar um pouco só a matéria, valorizar os sentimentos, amar desinteressadamente. Pensar mais nos outros, menos em si mesmo. O resultado seria a redução da angústia, das preocupações e do estresse. Mas a matéria-prima de que é feito o homem é bastante ordinária, para lembrar o uso desse verbete no interior e pelas pessoas do povo. Ordinariamente, o ser humano parece incapaz de se elevar e de refletir sobre a transcendência. Por isso é que, além de não estar preparado para a morte, ele acelera o seu encontro com ela.
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