É só cair a
primeira chuva para se
animarem e
colocarem a
cabeça de
fora. Como as
sementes que ficam anos a
fio esperando uma chuva para germinar no
meio do
deserto,
os buracos de
verão ficam meses esperando a
volta da temporada das tempestades violentas,
para ajudados por elas,
quebrarem o
asfalto e se
imporem,
sem ligar para ninguém e
sem medo de
ser felizes.
Os buracos de
verão variam de
tamanho.
Vão do
mais pequeno a
imensas crateras,
capazes de
devorar um
carro com
motorista e
passageiro dentro.
Também não pedem muita licença para se
instalar.
Normalmente não são exigentes.
Qualquer asfalto mais ou menos jeitosos serve,
ainda que tendo outros buracos para dividir o
mesmo espaço.
Raramente eles chegam de
uma vez e se mostram em toda sua grandeza, expondo o imenso perigo
que é trafegar próximo deles,
para rodas e suspensões.
Os buracos de verão são extremamente disciplinados. Não se precipitam, nem se apressam, mas avançam devagar, como os caçadores de leões dentro da savana alta.
Para eles é melhor esperar um ou dois dias a correrem o risco de serem descobertos antes de estarem prontos, permitindo que a prefeitura jogue sua gororoba de asfalto para tapá-los antes da hora.
Os buracos de verão sabem que a união faz a força e que é com jeito que se chega lá. Explode um aqui, outro ali, maior, um terceiro na rua do lado, até que uma cratera afunda uma avenida, chamando a atenção de todos, para dar tempo aos outros se consolidarem em suas ruas e calçadas, com calma, tirocínio e competência.