O
que é sonho e o
que é realidade,
nesta vida alucinada,
cada vez mais rápida, se
perdendo diuturnamente na cidade grande?
Quem sabe se o
ônibus passando em
cima do
carro é um
pesadelo com a
densidade de um
nhoque ou uma batida de
verdade?
Quem sabe se o
marronzinho debaixo da chuva é real
como os pingos caindo na cabeça da gente?
Quem sabe se
cada assalto não é mais que os anjos brincando de
pegador,
sem perceberem que as
balas matam?
Nada
é o
que parece na imensidão oceânica ocupando todo um
planalto mais vasto que a
baia de Santos, com
rios correndo ao contrário,
feito as
correntes marinhas que no
inverno mudam de
direção.
Prédios e
sombras se
sucedem, se
entrecruzam, se
enganam e se
escondem.
Os carros passam por eles sem perceber,
sem ver,
ou entender que dentro das trevas escondidas por escuros corredores,
há gente,
meu Deus,
há gente!
Sonâmbulos vagueiam seguindo o
atavismo dos
primeiros crentes atravessando o
deserto,
como se
os passos de
Moisés fossem possíveis de
serem repetidos por que não sabe dos
segredos da Cabala.
Cobras
imensas se
arrastam pelas ruas,
eternamente ligadas pelos faróis acessos de
milhares de
veículos perseguindo o
sonho de
uma rua sem trânsito.
Nada,
absolutamente nada
é o
que parece.
Nem eu,
nem você.
Somos apenas os reflexos da luz solar
nas águas escuras e
sujas de um
rio sem movimento.
Aqui cabeceira e
foz se
confundem nas dez horas depois da novela.
Choro e
riso são apenas o
que são,
ainda que chegando fora de tempo.
Na cidade grande o
oposto do
inverso é a
única realidade.