Os ipês se
dividem em
amarelos,
roxos,
brancos e
rosas. Em São Paulo
os mais comuns são os amarelos e
os roxos.
Os ipês brancos são bastante raros e
os rosas,
ainda que não sendo tão arredios,
aparecem pouco na malha urbana.
É uma pena que seja assim porque os ipês brancos e
os ipês rosas são deslumbrantes e
ter mais deles
seria uma forma de
baixar o
topete dos
primos mais comuns,
mas que também florescem com
grandeza,
balançando os cachos de
ouro como se
possuíssem o
segredo do Eldorado
ou com o
rosa denso,
marcassem as
trilhas que arrancaram dos
sonhos mais de
metade do
território brasileiro.
Dentro desta raridade atávica,
quando um
ipê rosa ou um
branco aparece florido a
sensação é de
quase tirar o
fôlego.
Ver seus galhos sem folhas carregados de
cachos de
flores, no
apogeu da florada,
mexe com o
íntimo da gente,
dá um
frio por dentro que explode
na alegria de
ver a
árvore carregada se
impondo na paisagem,
como quem diz,
“saí da frente porque aqui quem manda sou eu”.
Este ano eu
ainda não tinha visto nenhum dos dois. Mas outro dia, chegando
na Cardoso de Almeida, vindo
da Avenida Sumaré, ao olhar para a esquerda e
ver se
não vinha carro, dei com o bruto bem ali,
na frente do muro do cemitério do Araçá, absoluto, no comando
da calçada.
O
ipê estava para lá de bonito. Completamente carregado de
flores rosas, era o único dono do espetáculo, o senhor
da rua. Ele sabia disso e deixava claro
na sua pose serena, impassível
na manhã
sem vento.
Era o sol no céu e o ipê rosa na terra. O resto era sonho. A realidade não admitia intrusos. Por isso senti não ser parte da festa, embora soubesse que também era pra mim que ele floria.