
Em "
As Cidades Invisíveis",
Italo Calvino dá voz a Marco Polo,
que conta ao imperador Kublai Khan,
como são as
cidades por ele conquistadas. Em
determinado ponto das narrativas que se
sucedem quais fábulas,
repletas de
símbolo, o
poderoso Kublai Khan o
interrompe. "Era
uma daquelas noites em
que um vapor
hipocondríaco premia o
seu coração". E
indaga: "As
suas cidades não existem.
Talvez nunca tenham existido.
Certamente não existirão nunca mais.
Por que enganar-se com
essas fábulas consolatórias?
Sei perfeitamente que o
meu império apodrece como um
cadáver no
pântano,
que contagia tanto os corvos que o
bicam quanto os bambus que crescem adubados por seu corpo em
decomposição.
Por que você não me
fala disso?
Por que mentir para o
imperador dos
tártaros,
estrangeiro"?
Todo governante deveria ter alguém que o
servisse com
lealdade e com
franqueza.
Os áulicos não costumam dizer as
verdades,
senão aquilo que deles se
espera venham a
dizer.
Se fosse
mostrado ao governante que seu povo está sobrecarregado de
tributos,
que os serviços de
saúde,
transporte,
educação,
saneamento básico e
segurança não atendem às necessidades e
expectativas,
talvez o
governante meditasse antes de
tomar atitudes.
Se
alguém com
coragem abordasse o mal
terrível da corrupção,
endêmica e
impregnando todos os setores da vida pública,
talvez o
governante fosse
acometido de
coragem e
mandaria sair do
barco as
ratazanas.
Se
houvesse uma voz,
suscetível de
ser ouvida,
que afastasse o
ufanismo e
pudesse demonstrar que não há grandes motivos para comemorar, se a
Nação está num dos
últimos lugares do ranking
da educação,
tem um
pífio índice de
qualidade de
vida,
suas universidades não aparecem na relação das duzentas melhores de
todo o
globo,
então poderia o
governante assumir as
rédeas do
poder.
Reagiria,
agradeceria a
esse interlocutor
que aos olhos dos
convivas e dos
sequiosos por se
abeberarem das fontes do
tesouro pareceria cruel.
Se
isso acontecesse,
então a
Nação poderia sair da UTI da ética,
deixar para trás a
conivência com o mal e
readquirir higidez moral.
Mas haverá quem ouse falar a
verdade e
haverá ouvidos abertos para recebê-la com
humildade?
* Publicação em 08/09/2011 no Jornal de Jundiai -
http://www.portaljj.com.br/interna.asp?Int_IDSecao=1&int_id=158387